Entrevista: Cesar Izique, gerente executivo de RH na Tecnisa
Ele também é cirurgião-dentista e afirma que os dois trabalhos são mais parecidos do que aparentam à primeira impressão. Saiba por quê.

Quem procura Cesar Izique no LinkedIn vê que esse executivo é head de RH na Tecnisa, empresa com mais de 45 anos de história no mercado imobiliário, e passou por outras grandes organizações, como Dasa e Porto Seguro. Também descobre que ele é especialista em gestão de saúde corporativa e programas de bem-estar, além de atuar na prática com health analytics. Tem ainda todo um trabalho estratégico associado à relação da empresa com planos médicos.
Ou seja, na área de recursos humanos, Cesar é uma referência em conhecimento e atuação na área da saúde. O que muita gente talvez não saiba é que esse gestor – que mergulhou nos cargos de liderança do mundo corporativo como gerente administrativo de Assistência Médica no Itaú – também é um profissional da saúde fora dos escritórios. Ele concilia o trabalho no RH da Tecnisa com uma atuação como cirurgião-dentista, uma paixão que vem desde a juventude, e que ele não pensa em abandonar tão cedo.
Parecem dois universos muito distintos? Pelo contrário. Como o executivo bem explica nesta entrevista, liderar uma área de recursos humanos é gostar de cuidar de gente. Tem a ver com acolhimento, com passar confiança, com ouvir o que o outro tem a dizer sobre suas dores – e tentar resolvê-las.
Justamente o que Cesar Izique pratica dentro do seu consultório de odontologia – onde atende pacientes (por puro prazer de exercer a profissão) aos sábados, para não ter conflito de horário com seu expediente na Tecnisa.
Como você consegue conciliar um trabalho tão exigente, como o de head de RH de uma grande empresa, com a odontologia?
A minha formação oficial é de cirurgião-dentista. Eu atuei só em consultório por alguns anos. Depois eu tive a oportunidade de conhecer o mundo corporativo, em 2002, e já tentei conciliar. Eu trabalhava no Itaú em período integral e atendia no consultório à noite. Até porque eu ainda tinha incertezas sobre o meu futuro no banco, se era uma carreira que iria me deixar entusiasmado. Mas aconteceu. Comecei a me apaixonar pela área de RH, e isso tem a ver com a minha profissão de dentista: em ambos os casos, estou cuidando de gente.
Conforme você foi progredindo na carreira, ficou mais difícil tocar as duas profissões?
Sim, inclusive porque, trabalhando manhã, tarde e noite, mal sobrava tempo para a minha família. Então comecei a atender no consultório exclusivamente aos sábados. Fiz questão de manter uma regularidade nesses atendimentos porque a odontologia, principalmente quando se é um cirurgião, exige que você esteja sempre no auge da sua habilidade. Se, com o tempo, você perde a mão para a atividade, é muito complexo de recuperar. Não foi difícil me manter atuante porque minha esposa também é dentista, mas não trabalha na área cirúrgica. Então, sempre que ela identifica um caso com indicação técnica para cirurgia, ela passa aos meus cuidados.

Mas, Cesar, você tem um cargo importante numa empresa do porte da Tecnisa. Já está como líder no mundo corporativo há 23 anos. Por que continuar ocupando parte dos seus sábados com odontologia?
Ah, esses são dias em que eu consigo desopilar o fígado. Assim como no RH, saber que posso contribuir para o bem-estar de uma pessoa, colocando em prática as responsabilidades e técnicas que o trabalho exige, traz uma energia muito positiva. Quando falo de responsabilidades, para você ter uma ideia, só a aplicação da anestesia, se mal feita, pode trazer danos irreversíveis ao paciente. Então tem uma adrenalina envolvida. E, para mim, todo aquele ambiente é prazeroso. Desde o momento em que eu pego um bisturi, os outros equipamentos cirúrgicos, até a tranquilidade que transmito à pessoa no pós-operatório… São emoções boas que tenho tido ao longo da vida e pretendo manter enquanto tiver condições técnicas para isso.
Como essa sua experiência no consultório influencia o seu trabalho como líder de RH?
Minha meta de vida é focar em pessoas. Por isso, tenho prazer em fazer gestão dos profissionais da empresa, de liderar, de ajudar o próximo a se sentir realizado dentro da organização. O mesmo cuidado que eu tenho com os pacientes no consultório eu trago para o meu dia a dia na liderança do time de RH. Eu tento contagiar a equipe com esse zelo. Porque os nossos cuidados vão desde um processo de atração e seleção de talentos bem-feito, respeitar os candidatos, transmitir uma primeira boa impressão da empresa para o novo funcionário… Vejo muito desleixo em outros lugares nesse início de relação entre a empresa e o profissional.
Pode dar exemplos?
Acho uma falta de respeito quando há um cancelamento de entrevista de emprego sem justificativa ou quando o agendamento não é feito corretamente. Imagine que eu combine uma data para a cirurgia na boca de um paciente e, no dia, eu não apareça. Isso não existe, ou não deve existir, no trabalho do dentista, e não pode ser assim no recrutamento também. Aliás, caso o candidato não seja contratado, faço questão de que haja uma devolutiva do porquê de não ter dado certo. Eu prezo muito isso. E esse cuidado precisa continuar após a contratação. O RH tem de atuar para desenvolver as pessoas e para a criação de um ambiente em que elas se sintam com confiança, tenham segurança psicológica para enfrentar os desafios de quem trabalha no mundo corporativo.
Isso inclui incentivar os líderes a ter uma escuta ativa dos seus colaboradores?
Exato, e isso também é algo que eu trago da minha profissão de dentista. Uma cirurgia na boca é um momento tenso para o paciente, então sempre desenvolvi um cuidado pré-cirúrgico, de primeiro bater um papo com ele, contar o que vou fazer a cada momento durante a operação, perguntar se está sentindo alguma dor. Na Tecnisa, sempre falo para o meu time e para as lideranças da empresa: quando uma pessoa nos procura, ela está precisando de algo. E nós temos sempre de nos aperfeiçoar nessa experiência de atendimento ao cliente interno. Porque sabemos como esse colaborador e a própria empresa podem ser prejudicados se há muitos casos de burnout ou se existe um ambiente tóxico, em que o profissional não sente confiança no seu líder ou em seus pares.
Somos uma empresa que busca excelência em inovação. Então é muito importante que os profissionais tenham liberdade e se sintam à vontade para expressar suas ideias. Procuramos ser uma referência desse cuidado no mercado, um case de benchmarking. É dessa forma que, assim como no resultado de uma cirurgia bem-sucedida, teremos sempre pessoas trabalhando com um belo sorriso no rosto.
Este texto é parte da edição 96 (fevereiro e março) da Você RH. Clique aqui e confira outros conteúdos da revista impressa.