A real sobre os escritórios pet-friendly
Profissionais se estressam menos, interagem mais e não querem sair de empresas que adotam essa política. Entenda como implementá-la.

Estados Unidos, junho de 1999. Uma associação que nascera cinco anos antes, chamada Pet Sitters International, enviou um fax para centenas de empresas, convidando-as a participar de uma campanha inédita: a Take Your Dog To Work (em bom português, “leve seu cachorro para o trabalho”). O objetivo da organização era celebrar nossos amigos de quatro patas – e trezentas empresas aceitaram o convite. Vinte anos depois, a campanha ainda acontece na gringa, com reconhecimento e influência internacional.
Nesse intervalo, levar o pet ao escritório se tornou cada vez mais comum. Grandes empresas, como Google, Nestlé, Amazon, Airbnb, Etsy, Salesforce e Ben & Jerry’s, permitem a entrada de cachorros e/ou gatos em seus escritórios. E não estamos mais falando sobre um dia útil, entre 250. Trata-se de uma política bem-estruturada e contínua que dá uma vantagem competitiva no mercado de trabalho. Porque os escritórios pet-friendly tendem a ser menos estressantes e mais colaborativos. Influenciam positivamente na atração e retenção de talentos.
Quem vos fala, uma dog person de carteirinha, é suspeita para tal. Mas pode confiar: há uma série de estudos baseados em experimentos que apoiam tais benefícios (você logo conhecerá alguns deles). Tudo indica que adotar e manter uma política pet-friendly tem grande potencial de deixar os profissionais mais satisfeitos com o escritório em que trabalham. A grande questão é como fazê-lo.
Entrevistamos algumas empresas amigas dos bichinhos no Brasil – algumas, há mais de década – para coletar e compartilhar seus aprendizados. O resultado é um compilado de dicas para fazer a política dar certo. Já vamos a elas. Mas, antes, entenda por que é uma boa ideia seguir esse caminho.
Bons aumigos
Não é à toa que seu cachorro parece entender perfeitamente o que você diz – ou seu gato dá a impressão de ter uma conexão especial com você, ainda que adore derrubar vasos. Nossos antepassados convivem há dezenas de milhares de anos. Quando e onde domesticamos esses animais ainda é motivo de debate. Mas a primeira associação conhecida entre gatos e humanos data de 10 mil a 15 mil anos atrás, no Oriente Médio. Acredita-se que os primeiros eventos de domesticação de cães, por sua vez, aconteceram no norte da Eurásia, entre 14 mil e 29 mil anos atrás. Em suma, temos uma longuíssima história em comum.
Hoje, uma série de estudos demonstra o impacto dessa relação no bem-estar humano. Pesquisadores da Universidade Estadual de Washington, nos Estados Unidos, já mostraram que nossa capacidade de concentração e planejamento aumenta quando interagimos com cachorros – um efeito que permanece no médio prazo. Cientistas da Universidade de York e da Universidade de Lincoln, na Inglaterra, acompanharam mais de 6 mil pessoas para concluir que a presença de pets ajuda a reduzir nossos níveis de estresse porque eles tendem a nos fornecer algum suporte emocional. Os efeitos vão além da saúde mental: outro estudo, da Universidade de Michigan, nos EUA, identificou uma associação entre atividade física e a posse de animais de estimação – eles nos obrigam a levantar do sofá, afinal.
Naturalmente, os benefícios se mantêm no escritório. Em um estudo da Livecareer com mais de mil participantes, 76% das pessoas afirmaram que trabalhar na presença de cães e gatos é uma experiência positiva, porque cria um ambiente mais descontraído e relaxado (33%), além de reduzir o estresse (28%). 49% deles ainda disseram que um escritório pet-friendly os convenceria a aceitar uma oferta de emprego, e 51% acreditam que a presença dos animais facilitaria a interação com os colegas. Daí o fato de 94% dos entrevistados aprovarem escritórios pet-friendly. Um relatório da Pet Sure, por sua vez, ainda mostrou que ter animais de estimação no ambiente corporativo pode melhorar a produtividade e aumentar a colaboração entre os funcionários.
Por isso, empresas que aceitam pets têm maior probabilidade de atrair, engajar e reter funcionários, segundo uma pesquisa do Human Animal Bond Research Institute (Instituto de Pesquisas sobre Vínculos entre Humanos e Animais, em tradução livre). Quase metade dos donos de cães, por exemplo, afirma que seria mais difícil deixar o emprego se sua companhia atual permitisse que os funcionários levassem pets para o trabalho, de acordo com uma pesquisa do Grupo Mars (dono de marcas como Pedigree, Whiskas, Snickers e M&M’s).

O escritório pet-friendly, portanto, é um fator importante para empresas que procuram se destacar no mercado. E essa discussão ganhou ainda mais espaço após o isolamento social provocado pela Covid-19. Afinal, só no início de 2020, a busca por adoção de cães e gatos aumentou em 50% – o mercado de cuidados e acessórios para pets, 13,5%. Mais pessoas se apegaram aos animais de estimação e passaram a enxergá-los como membros da família.
O Google Brasil, por exemplo, aceita pets no escritório há 12 anos. “Mas a prática [de levá-los] ficou bem mais forte entre nossas equipes após a pandemia”, afirma Carolina Priscilla, market HR lead da companhia. Essa é uma tendência relatada por diversas empresas mundo afora. Outra semelhança entre elas: a criação e manutenção de certas regras para garantir que os potenciais benefícios da convivência entre humanos e animais apareçam, de fato, no dia a dia. É o que vamos ver agora.
Converse e negocie
O primeiro ponto a ter em mente, quando se pretende criar uma política pet-friendly ou advogar pela causa, é que algumas pessoas podem simplesmente não gostar de cães e gatos (os bichinhos mais considerados nesta discussão). Elas podem ser alérgicas – condição que afeta entre 10% e 20% da população mundial –, ter medo dos animais ou se sentir desconfortáveis com a ideia, por qualquer motivo.
Não se pode perder essa questão de vista. Nas palavras da especialista Trish Ennis, presidente da Companion Animal Network Australia, organização que atua em prol do bem-estar animal, “criar um local de trabalho que aceita animais de estimação envolve equilibrar cuidadosamente os interesses e direitos de todos os funcionários” – além de garantir o conforto dos pets e gerenciar as responsabilidades associadas a eles.
Isso significa que comunicação é a chave, tanto para introduzir uma política pet-friendly quanto para combinar a presença dos cães e gatos no dia a dia. Os tutores precisam conversar previamente com seus gestores e colegas de equipe sobre a possibilidade de levar os bichinhos ao escritório, por exemplo, para garantir que ninguém se sentirá desconfortável. A empresa, por sua vez, precisa se assegurar de que esse cuidado fará parte do cotidiano – e controlar a presença dos animais. Pode-se adotar um método de agendamento prévio para permitir determinado número de pets por dia, setor, andar…
Às vezes, também é necessário conversar com o condomínio onde fica o escritório. Foi o caso da Nestlé, segundo a diretora de marketing da marca Purina, Júlia Valente. “Estamos em um prédio compartilhado, então tivemos de falar com a incorporadora para termos duas áreas [externas] dedicadas aos pets, mesas nos arredores da praça de alimentação para pessoas com animais e dois elevadores exclusivos.” Os ajustes rolaram com o tempo, conforme a Nestlé e seus vizinhos percebiam a necessidade de fazê-los.
O Grupo Mars também teve de negociar e convencer os outros condôminos do seu prédio. “Fizemos uma comunicação para todos os vizinhos sobre os benefícios da interação humano-animal para pedir que o edifício se tornasse pet-friendly”, disse a diretora de RH, Simone Karpinskas. E deu certo.

Regras de cão-vivência
Outro ponto importante: não raro, cães e gatos preferem o conforto do lar. Ter de conviver com outros animais e estar rodeado por tanta gente pode ser estressante. Por isso, para garantir o bem-estar dos animais e de todos os envolvidos, a empresa precisa conscientizar os tutores sobre a necessidade de considerar a personalidade dos pets antes de levá-los ao trabalho. É melhor que os cães e gatos introvertidos, pouco sociáveis ou muito bagunceiros não participem do expediente.
Uma medida interessante, sugerida pelo Grupo Mars em uma das cartilhas disponíveis no site Better Cities for Pets, é adotar um sistema de cores para as coleiras. Acessórios verdes, por exemplo, podem significar “adoro que me façam carinho”. Amarelos, “fale com meu tutor primeiro”. Da mesma forma, as cores podem aparecer em crachás confeccionados para identificar o nome e o tutor de cada animal. A empresa pode entregar esses objetos ao tutor após garantir que o pet está com a carteira de vacinação atualizada – e colocá-lo na lista de animais do escritório.
Além da personalidade, algumas empresas (como o Google Brasil) consideram o porte do animal. É uma medida de segurança: a ideia é que os tutores possam carregar o cachorro no colo caso precisem evacuar o prédio. De qualquer forma, o importante é incluí-los nos planos e treinamentos de emergência da empresa.
As coleiras são sempre obrigatórias, e os tutores são sempre os responsáveis pelo animal durante o expediente – por comida, passeio e higiene. Ou quase sempre: a Nestlé, por exemplo, fechou contrato com uma empresa de petcare e oferece o serviço a um preço simbólico para seus funcionários. Assim, quem não quer deixar o pet sozinho em casa nem submetê-lo à monotonia do escritório pode deixá-lo com um grupo de babás e aumigos em uma área externa da empresa.
Esse é um plus: um escritório pet-friendly não precisa ser muito elaborado (veja os cuidados essenciais na lista abaixo). O importante é que haja comunicação suficiente para que todos se entendam. Cachorros, gatos e, principalmente, humanos – esses bichos muito mais difíceis de conviver em harmonia.
BREVE GUIA PARA A INCLUSÃO DOS PETS
A presença de cães e gatos no escritório pode trazer benefícios para funcionários e empregadores – se a companhia tomar cuidados básicos com…
- Segurança. Certifique-se de que as plantas do escritório não são tóxicas, assim como os produtos usados para limpeza. Fios elétricos, cordas de persianas e decorações devem ficar longe do alcance dos pets.
- Higiene. Garanta que os animais não consigam acessar as lixeiras. E considere instalar uma estação para higiene das patinhas para que os pets não levem lama ao piso do escritório.
- Organização. Estabeleça uma lotação máxima por dia e setor da empresa – além de um sistema de agendamento prévio. Considere que cães e gatos na mesma área, ao mesmo tempo, podem se desentender.
- Espaço. Os funcionários precisam de um lugar, em torno das mesas, para acomodar os pets. Organizar áreas externas também é uma boa, assim como oferecer salas onde o profissional possa trabalhar com seu pet introvertido.
- Responsabilidade. É o tutor quem cuida do pet, deve mantê-lo em uma coleira com identificação e, em primeiro lugar, certificar-se de que a equipe se sente confortável com a presença do seu animal.
Este texto é parte da edição 95 (dezembro e janeiro) da Você RH, que chegará às bancas na próxima sexta (6). Acompanhe nosso site e nossas redes sociais para não perder o lançamento.