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Como se tornar uma empresa sustentável e combater a mudança climática

No Dia da Terra, entenda o que as companhias devem fazer para criar uma agenda eficiente de sustentabilidade e conscientizar funcionários e líderes

Por Caroline Marino Atualizado em 21 abr 2021, 19h41 - Publicado em 22 abr 2021, 08h00

Em 2020, a temperatura média da Terra sofreu um aquecimento de 1,2 grau Celsius, de acordo com dados da World Meteorological Organization (WMO). O índice é especialmente perigoso porque está muito perto do limite de 1,5 grau Celsius estabelecido por cientistas como o máximo que pode ser alcançado antes que consequências ainda mais graves para o planeta venham à tona.

Não por acaso, António Guterres, secretário geral da Organização das Nações Unidas (ONU), declarou em coletiva de imprensa que “nós estamos à beira de um abismo” e que 2021 deve ser o ano crucial para o combate à mudança climática no mundo. Segundo ele, os governos devem “apresentar contribuições ambiciosas determinadas nacionalmente” e criar planos climáticos muito mais eficientes do que os atuais para a próxima década.

A ameaça é tão profunda que o relatório The Global Risks Report 2020, do Fórum Econômico Mundial, mapeou que todos os cinco maiores riscos às sociedades e empresas no ano passado se relacionavam ao meio ambiente – à frente de questões como armas de destruição em massa, fraudes e roubo de dados e ciberataques, citadas em 2019 (saiba mais no quadro abaixo, Os Perigos da Negligência).

Imagem de uma tabela em azul e amarelo
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Sustentabilidade no centro dos negócios

Os Estados têm papel fundamental no combate às mudanças climáticas, mas as empresas também precisam agir – afinal, são protagonistas em ações que geram impactos ambientais, como emissão de poluentes, alta pegada de carbono e desmatamento. Mas falar de sustentabilidade não é apenas falar de meio ambiente, mas de negócios, de resultados e de perenidade.

Segundo levantamento feito pela consultoria Humanizadas, em parceria com o Instituto Capitalismo Consciente Brasil (ICCB), companhias que geram impacto positivo para a sociedade acumularam, entre 2000 e 2019, uma rentabilidade 3,5 vezes superior à média das 500 maiores organizações do país. Esse dado explica porque a Black Rocks, maior gestora de investimentos do mundo, com cerca de US$ 8 trilhões de ativos sob sua administração, coloca a sustentabilidade no centro das decisões de investimento.

Desde 2012, o CEO da companhia, Larry Fink, chama atenção para assuntos de governança corporativa como fator necessário para a perenidade e o desempenho a longo prazo. O comportamento do americano está alinhado com o de outros líderes: uma pesquisa da escola de negócios suíça IMD mostra que 62% dos executivos consideram que uma estratégia de sustentabilidade é fundamental para a competitividade.

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Mais valor a longo prazo

A sustentabilidade é importante para criar valor a longo prazo, ainda mais quando as companhias começam a operar nos pilares definidos pelo ESG, sigla em inglês para Environmental, Social e Governance, geralmente usados para medir as práticas ambientais, sociais e de governança de uma empresa (saiba mais no quadro Os Três Pilares do ESG).

Mas é preciso tomar alguns cuidados para que essa mentalidade se dissemine na empresa e não fique restrita às necessidades dos acionistas. Segundo Luciana Lima, sócia da ScienceConsulting e professora do Insper nas disciplinas de estratégia de negócios, pessoas e liderança, é necessário criar práticas levando em consideração todas as partes interessadas. Isso porque, se o gestor pensar somente no acionista, vai tomar decisões apenas com foco na maximização do resultado. “É preciso estar em equilíbrio também com os interesses do empregado e da comunidade que atua ao redor do negócio”, diz.

É essencial ainda ter em mente que a sustentabilidade vai além de questões como resíduo e reciclagem. Para que a estratégia sustentável seja eficiente, as companhias devem colocá-la como um pilar estratégico e definir métricas transparentes de governança que abarquem temas como pegada de carbono, emissão indireta de poluentes e uso consciente de água e de energia. “Vale incluir ações para melhorar seu produto usando fontes renováveis, menos uso de petróleo e outros derivados de combustíveis fósseis”, diz Marcus Nakagawa, professor da ESPM, especialista em sustentabilidade e autor do livro 101 Dias com Ações Mais Sustentáveis para Mudar o Mundo (Editora Labrador).

No guarda-chuva do ESG, o impacto social tem muita força – e aí entram os temas de inclusão, tão em voga na agenda dos profissionais de recursos humanos atualmente. “A diversidade e a representatividade justa do país dentro da empresa são fatores importantes”, diz Marcus.

Os três pilares do ESG

E: termo para o meio ambiente, que se refere às políticas ambientais da companhia, como, por exemplo, medidas em relação a poluição, emissões de gases de efeito estufa e gestão de resíduos.

S: trata-se do cuidado que a companhia tem com o social, levando em conta funcionários, clientes e comunidades ao redor da empresa. Internamente, tem a ver com garantir o bem-estar e a segurança dos trabalhadores e contar com uma política de diversidade e inclusão. Externamente, em respeitar a política de proteção de dados e apoiar a economia local, por exemplo.

G: este pilar tem relação com os princípios de governança, como manutenção da transparência, composição equilibrada e diversa do conselho, prestação de contas à sociedade e atenção ao código de ética e aos canais de denúncia.

Cuidado com o modismo

Um ponto importante para manter uma agenda de sustentabilidade eficiente é não cair na tentação de adotar ações que se guiem pelo marketing e não pela mudança real do negócio. “Esse é o maior risco. É o que chamamos de greenwashing: fazer 10% e comunicar 90%”, diz João Carlos Redondo, coordenador da comissão de sustentabilidade do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).

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Por isso, é melhor que a companhia só comunique suas práticas ao mercado depois de ter percorrido uma jornada e conquistado resultados. Não é nenhuma vergonha, por exemplo, assumir que algumas iniciativas deram errado e discutir os problemas. “Uma empresa se expõe negativamente quando rompe a coerência entre o que fala e o que pratica”, afirma João.

Capacitar a equipe de marketing e preparar os porta-vozes sobre esses assuntos são cuidados que a companhia deve ter o tempo todo. “Se não tem a convicção de que é necessário avançar nessa agenda, não siga. Não faça por conveniência. Há o risco de tropeçar na comunicação e de gerar uma crise de reputação”, explica o coordenador do IBGC.

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RH como guardião da sustentabilidade

A sustentabilidade não é conquistada do dia para noite – exige uma transformação cultural profunda. “É preciso olhar para dentro da empresa, e entender como gerar valor aos seus públicos de relacionamento – empregados, acionistas, investidores, governo, sociedade”, diz João.

Como em qualquer mudança dessa natureza, o RH torna-se um importante articulador. “A área de recursos humanos é uma das grandes guardiãs da governança sustentável. Deve levar informação, conhecimento e traduzir essas questões para o funcionário, inclusive nas práticas de gestão de pessoas”, diz Liliane Rocha, CEO e fundadora da Gestão Kairós, consultoria especializada em diversidade e sustentabilidade.

Para isso, inicie alinhando a estratégia da companhia a uma agenda que olhe para os três pilares do ESG. “Observe temas como inclusão e retenção de talentos, compreendendo as necessidades de públicos diferentes, e discutindo questões como benefícios parentais e licença maternidade”, afirma João, IBGC.

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E os funcionários?

Faz parte do escopo de gestão de pessoas entender como essa agenda irá impactar a vida dos empregados. O home office, que ganhou força durante a pandemia de covid-19, é um bom exemplo. Muitas empresas entenderam que esse estilo de trabalho é mais sustentável, pois diminui as emissões de carbono com o menor deslocamento dos profissionais até o local de trabalho, reduz consumo de energia nos prédios corporativos e diminui a geração de lixo dentro das companhias, por exemplo. “Mas a empresa não pode tomar uma decisão sem considerar o interesse de cada funcionário. Isso não será sustentável, pode afetar a produtividade do time e agravar questões mentais de profissionais que trabalham mal em casa”, diz Luciana, do Insper.

Outro ponto é olhar para as funções e para a postura dos trabalhadores, como explica Pablo Carpejani, especialista em sustentabilidade corporativa e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Vale monitorar, por exemplo, se o pessoal da linha produtiva está colaborando com a economia de energia e a redução do uso de água; se as equipes administrativas estão fazendo descarte adequado de papel; se as decisões dos executivos levam em conta questões de sustentabilidade no momento de aprovar um novo projeto; e se a organização, institucionalmente, está ajudando a comunidade ao entorno da companhia. “Algumas empresas já estão colocando na descrição de cargos atribuições de sustentabilidade, além de incluir metas dessa temática nas avaliações de desempenho e na remuneração”, explica Pablo.

A importância da conscientização

Ter uma diretriz estratégica para que todos os funcionários estejam cientes de quais são seus compromissos individuais também entra na pauta do RH. O ideal é já procurar essa mentalidade sustentável no recrutamento, contratando pessoas que estejam alinhadas com a cultura que a empresa quer construir. Mas isso não basta. Deve-se treinar frequentemente os novos contratados e os que já estão na casa há mais tempo.

Esse processo precisa seguir certa racionalidade e, caso a empresa esteja começando, é preferível iniciar o desenvolvimento pela alta liderança – responsável por disseminar os hábitos e a cultura sustentável para o restante da equipe. “Devemos entender o nível de consciência dos líderes e ter em mente que quem toma decisões em uma organização não é o CNPJ, mas as pessoas, com seus valores e princípios. Se a liderança não estiver consciente do seu papel na organização, dificilmente a agenda vai evoluir”, afirma João, do IBGC.

O mais importante nessa jornada é educar e sensibilizar as pessoas sobre a sustentabilidade – ação que irá gerar impacto até fora dos muros das companhias. As lideranças, e especialmente o RH, têm a incumbência de disseminar os motivos que fazem da sustentabilidade um tema crucial, mostrando o quanto as ações sustentáveis são positivas não só para a rentabilidade dos negócios, mas para a sociedade como um todo e para garantir o futuro das próximas gerações.

Ações para colocar a sustentabilidade na agenda estratégica

1. Faça um diagnóstico
O primeiro passo é mapear as práticas da companhia. Para isso, faça duas perguntas iniciais: quais impactos ambientais a empresa gera por meio de sua operação e de seus produtos? O que a liderança pensa sobre o assunto?

2. Procure referências
Entender quais são as melhores práticas do mercado ajuda no momento de desenhar a própria política. Procure concorrentes, companhias de outros setores e ONGs para trocar informações. A partir disso, construa visões de curto, médio e longo prazos, envolvendo toda a cadeia de funcionários e fornecedores e sempre alinhada à estratégia do negócio.

3. Conte com o apoio de uma área de governança
O setor guia e orienta a empresa no que diz respeito a poder, responsabilidades, direitos e recompensas que afetam diretamente a conduta de todas as partes interessadas. O objetivo da área é criar valor ao negócio de maneira ética e responsável. Os membros dessa equipe permitem que os assuntos da agenda sustentável sejam tratados com qualidade no dia a dia do negócio, e alinhados à estratégia.

4. Reveja os programas e práticas
Analise as ações da empresa e verifique que ajustes devem ser feitos para que a sustentabilidade esteja presente em todas as práticas, programas e projetos. É recomendado fazer essa análise, também, em jobs descriptions e atribuições dos executivos, incluindo métricas e bonificações relacionadas à sustentabilidade.

 

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