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Pesquisa revela que 55% dos líderes brasileiros se sentem estressados

Levantamento com mais de 1.000 líderes e liderados ainda revela que 30% dos funcionários acreditam que seus chefes estão à beira do burnout

Por Elisa Tozzi Atualizado em 5 jul 2021, 19h25 - Publicado em 6 jul 2021, 07h00

Como está a saúde mental e as percepções sobre qualidade de vida e habilidades de líderes e liderados do Brasil? Foi para responder a essas perguntas que a Vittude, startup de psicologia online e educação emocional, e a Opinion Box entrevistaram 1.014 pessoas no país. O estudo demonstra que chefes e equipes têm visões diferentes sobre diversos pontos. Quando de trata de competências importantes para os gestores, por exemplo, 77% dos liderados dizem que é fundamental saber ouvir críticas e sugestões, mas isso só é visto como importante por 31% dos líderes.

Quando o assunto é saúde mental e qualidade de vida, é preciso levantar o alerta: os profissionais estão emocionalmente abalados. Entre os gestores, 55% se sentem estressados, índice que cai para 41% entre os liderados – e 3 em cada 10 funcionários acreditam que seus líderes estão à beira do burnout. “É impossível cuidarmos de outra pessoa ou acolher alguma situação delicada se estivermos adoecidos”, diz Tatiana Pimenta, CEO da Vittude. Na entrevista abaixo, a executiva explica o que fazer para fortalecer a saúde mental e ampliar o autoconhecimento.

A pesquisa traz dados preocupantes sobre saúde mental: 55% dos gestores estão estressados, 41% dos liderados dizem que estão estressados e 30% dizem que seus chefes estão à beira do burnout. Como um funcionário pode cuidar da própria saúde mental?

O cuidado com a própria saúde é responsabilidade de cada indivíduo. Sabe a analogia do avião despressurizado? Coloque a máscara primeiro em você e depois nas crianças. É impossível cuidarmos de outra pessoa, ou acolhermos alguma situação delicada se estivermos adoecidos. Logo, em primeiro lugar devemos ter uma forte atenção para o autocuidado. Se queremos nos proteger das doenças mentais, precisamos agir de forma preventiva.

No meu caso, eu aposto em um conjunto de ações: psicoterapia (há mais de nove anos), meditação (importante para conseguirmos focar a atenção no momento presente, driblar a ansiedade e gerenciar o estresse diário), atividade física praticada de forma regular e sono restaurador. Dormir entre sete e nove horas por dia é uma das ações mais importante para conservarmos nossa saúde física e mental. 

  • Como alertar o chefe ou o colega de que a pessoa pode estar com um problema de saúde mental?

    É preciso estabelecer uma relação de confiança. Lembro exatamente quando tive depressão. Eu demorei a reconhecer os sinais e a buscar ajuda profissional. Foram as pessoas que conviviam comigo que perceberam as alterações de comportamento, humor, etc. E foi, em uma conversa que uma pessoa bem próxima me abordou e disse: “Tati, tenho percebido que você está diferente. Está sorrindo menos, está mais calada, tem perdido alguns compromissos. Está tudo bem? Posso ajudar de alguma forma?”.

    Se percebemos que alguém não está bem, o importante é não julgar e se colocar à disposição para ouvir, acolher e até apoiar a pessoa a buscar ajuda profissional. Não posso deixar de lembrar que ansiedade, estresse e burnout são quadros de transtornos mentais que demandam cuidado especializado. Uma conversa de amigos é importante, mas é totalmente diferente de uma escuta qualificada como a de um psicólogo ou mesmo de um psiquiatra. Quando pensamos em doenças, precisamos de cuidado adequado. Digo isso porque não é incomum pessoas abordarem colegas com algum nível de sofrimento emocional e emitirem o seguinte comentário: “Vai passar!”. Por experiência própria, não passa sem tratamento eficaz. Se você está sentindo que algo não vai bem, busque ajuda.

    “Se percebemos que alguém não está bem, o importante é não julgar e se colocar à disposição para ouvir”

    Quando olhamos a comparação entre as percepções dos líderes e dos liderados na pesquisa, um ponto chama a atenção: para 37% das equipes, é preciso um líder que se mostra vulnerável e humano – mas isso só aparece como importante para 6% dos gestores. Por quê?

    Essa é uma pergunta complexa, mas bem importante. Eu começaria com uma provocação: pense em líderes ou em pessoas que você admira. O que elas têm em comum? Uma das grandes habilidades ou competências de um líder excepcional é a sua capacidade de se conectar com os outros. Quando conseguimos fazer isso, ampliamos nosso potencial de comunicação e de geração de negócios. E um dos caminhos para conseguir uma conexão aprofundada é demonstrando vulnerabilidade. Quando derrubamos nossos escudos e armaduras, mostramos nossa humanidade. Ao compartilhar medos, inseguranças, situações delicadas de vida, também demonstramos que somos gente e não que somos “seres mágicos” ou “super heróis”. 

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    Eu diria que demonstrar vulnerabilidade é fundamental para criarmos conexões fortes. E, ao conseguirmos isso, ampliamos nossa capacidade de inspirar, atingir resultados e influenciar positivamente todos ao nosso redor, sejam eles os liderados, clientes ou pessoas do convívio familiar. 

    “Quando derrubamos nossos escudos e armaduras, mostramos nossa humanidade”

    O que fazer para ajudar a liderança a se sentir à vontade para se mostrar mais vulnerável?

    Não consigo deixar de considerar o autoconhecimento e a educação emocional. Faço parte de uma geração que foi educada para ser forte, para dar conta de tudo, para não chorar na frente de ninguém e para seguir firme, mesmo quando as coisas estão difíceis. Eu me dei conta que toda essa carga, que vinha da minha construção como ser humano, contribuiu bastante para me levar até um quadro de depressão e ter dificuldade para sair dele. Foi na terapia que aprendi a reconhecer sentimentos, dar nome para minhas emoções, saber meus limites e falar não. 

    Uma das estratégias para desenvolver não somente a vulnerabilidade, mas também diversas habilidades emocionais, é revisitar as práticas de treinamento, desenvolvimento e capacitação de líderes. Avaliar os conteúdos programáticos de universidades corporativas, incluindo pautas diversas de educação emocional como segurança psicológica, vulnerabilidade, inteligência emocional, empatia, entre outros é um primeiro passo. Também é preciso entender que, numa sociedade em plena transformação digital, o trabalho de educação emocional precisa de espaço, amplitude e consistência. Precisamos desconstruir uma série de conceitos e começar a ensinar as pessoas, em especial os líderes, a lidarem com suas emoções.

    “Precisamos desconstruir uma série de conceitos e começar a ensinar as pessoas, em especial os líderes, a lidarem com suas emoções”

    Outro ponto de discrepância entre chefes e chefiados apontado na pesquisa é sobre “saber defender a equipe”. Embora isso seja importante para 55% dos liderados, apenas 12% dos gestores consideram essa questão essencial. Qual a razão para essa diferença tão grande? 

    Quando pensamos em ambientes de alta performance, não podemos deixar de pensar em uma característica comum: a segurança psicológica. Para que membros de um time possam produzir e criar inovação, por exemplo, é fundamental que o erro seja permitido e até incentivado. Nesse sentido, torna-se necessário a existência de líderes que defendem seus liderados. Nossa missão, em muitos momentos, é servir de escudo para que as pessoas possam desenvolver todo seu potencial sem o medo de serem julgados, criticados e até mesmo assediados. 

    Acredito que a diferença de percepção entre líderes e liderados pode estar relacionada a questões geracionais, culturais e até mesmo um menor grau de autoconhecimento e empatia por parte de muitos líderes. Reforço: boa parte das pessoas em posição de alta liderança nos dias atuais faz parte de uma geração que foi educada para “dar muito duro” e ser fortes. Elas passaram a vida ouvindo: “Engole o choro!”. Os líderes também precisam de cuidados, de acolhimento e, de novo, de muita educação emocional.

    “Os líderes também precisam de cuidados, de acolhimento e de muita educação emocional”

    Na pesquisa, os líderes se avaliam melhor do que os liderados os avaliam. Isso demonstra uma falta de autoconhecimento dos gestores? Como calibrar as percepções?

    Com certeza. Falta de autoconhecimento e mesmo de feedbacks abertos e transparentes tanto por parte dos seus superiores quanto dos liderados e pares. A melhor forma de calibrar essa percepção é criar uma cultura de diálogo aberto, de franqueza, de assertividade. Gosto de um livro de Kim Scott  traduzido para o português como Empatia Assertiva (Alta Books, R$ 53,90, 272 páginas). Nele a autora traz aspectos importantes que envolvem a franqueza e a percepção mais eficaz da realidade. Uma das ferramentas mais poderosas para desenvolver o autoconhecimento é a psicoterapia. As pessoas e líderes mais brilhantes que conheço são terapeutizadas. Normalmente são pessoas que inspiram e que lideram com maestria, por terem um grau de autoconhecimento elevado.

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