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Quer ser mais feliz no trabalho? Resgate o hábito de brincar, diz autor

Segundo psicólogo, autor do livro Playfulness, crianças ensinam que a exploração da vida não para e que o agora precisa ser experimentado com intensidade

Por Letícia Furlan Atualizado em 13 Maio 2022, 18h10 - Publicado em 10 Maio 2022, 18h11
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o livro Playfulness: Trilhas para um vida resiliente e criativa (Editora DVS, 71,20 reais), o psicólogo Lucas Freire conta como dois personagens, Ângelo e seu filho, Marcelo, representam gerações distintas. Ângelo fez carreira em uma indústria tradicional e, após 30 anos, foi demitido. Marcelo atua em uma companhia moderna e flexível, e jura que, diferentemente do pai, não se alienou com o trabalho. Mas ambos acabam por vestir a camisa da empresa de forma exagerada, fazendo com que sua vida se resuma ao escritório.

Na narrativa, Lucas propõe um olhar mais leve para a carreira, com a inclusão da diversão e de práticas lúdicas na rotina, definidas por ele como “playfulness”. “O lúdico é a conexão com a nossa criança interior, que nos fará questionar o status quo e dará luz à criatividade e à inovação”, afirma. “É o instrumento para o lifelong learning, algo que, por alguma razão, fomos perdendo ao longo da formação dos nossos modos e maneiras de trabalhar.” Em entrevista a VOCÊ RH, o autor conta mais sobre a prática.

Como o conceito surgiu? 

Surgiu quando passei a estudar autores que dedicaram suas pesquisas ao campo da satisfação no trabalho e da dimensão e do papel do “play”. Logo percebi que existe uma grande confusão de tradução da palavra “play”, muitas vezes descrita apenas como brincar ou jogar. É muito mais que isso. É também atuar, tocar, viver.

No que se baseia essa prática?

O playfulness está ancorado em quatro pilares: resiliência estoica, tensão criativa, flow e ludicidade. A resiliência estoica parte do pressuposto de que a impermanência é constante nas nossas vidas. Mas não podemos nos paralisar diante dela. É preciso nos darmos conta daquilo que conseguimos controlar e agir sobre isso, deixando passar o que não está ao nosso alcance.

A tensão criativa é criada a partir da diferença entre o lugar em que estamos e aquele ao qual queremos chegar. A caminhada entre um ponto e outro pode ser conduzida de várias formas, podendo gerar dor ou prazer. Quando gera prazer e exercita a criatividade e a resiliência, ela é a tensão criativa — é ela que buscamos, que nos dá norte e sentido.

E sabe quando você está fazendo algo de que gosta muito e chega a perder a noção do tempo ou não percebe barulhos e estímulos ao seu redor enquanto realiza a tarefa? Isso é o flow! Esse estado nasce da combinação entre resiliência e tensão criativa, e requer um grau de desafio para ser alcançado.

Como a busca por mais qualidade de vida se relaciona com essa proposta?

A concepção de trabalho mudou muito com o passar do tempo, mas sua centralidade na vida das pessoas permanece. Desde sempre, o trabalho dá sentido à vida e ajuda a formar a identidade do sujeito. Antes da era das indústrias, o trabalho era muito associado à constituição social de estratos e era passado de pai para filho, como uma tradição familiar. Em alguns lugares, inclusive, a profissão era o sobrenome das famílias (os Potter, por exemplo, faziam pottery, que é cerâmica).

Com a revolução industrial, começamos a ter uma ideia diferente de trabalho e de carreira. A execução de uma tarefa foi fragmentada e dividida com outras pessoas e com as máquinas. Cria-se, então, um trabalho muito mais especializado, mas que é parte de algo muito maior, o produto final. Por isso, a identidade social do trabalho também foi alterada e, agora, surge o sentimento de pertencimento às organizações. Nasce aí, também, a ideia de que cada pessoa trabalhando naquela instituição é uma peça de uma máquina, destinada a fazer o seu trabalho e sem a possibilidade de explorar sua criatividade. Existe um processo de “objetificação” do humano, que era tratado, muitas vezes, como um recurso. 

Mais recentemente, influenciado por diversos fatores, em especial as revoluções industrial e tecnológica e a pandemia, os modelos começaram a ruir. E a sociedade vem percebendo a urgência de novos arranjos que criem prosperidade somada ao bem-estar físico e mental no trabalho, com modelos criativos e flexíveis que respondam ao nosso momento social. Surgem, então, carreiras não lineares, relações de trabalho novas, novos espaços e formas de atuar que nos convidam não a observar, mas sim a protagonizar uma transformação. 

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No livro, os dois personagens principais simbolizam questões geracionais. Por que considera importante abordar também essa discussão?

Vivemos hoje um caldeirão geracional no mundo corporativo que dialoga e luta com diferentes anseios, visões e formas do que é viver e trabalhar. Os personagens são inspirados em pessoas reais, pais e avós de muita gente que conheço e que nem sempre aproveita esse ciclo de trocas e aprendizados mútuos.

Os intervalos geracionais estão cada vez mais acelerados, o que coloca, muitas vezes, até cinco gerações numa mesma equipe de trabalho. Novas visões sobre formas de trabalhar e viver precisam ser constantemente ajustadas e negociadas. Existe uma clara e forte tensão aí, um terreno propício para “apertarmos o play” e criarmos algo novo.

Lembro-me com clareza de quando meu pai me falava sobre aproveitar a vida na aposentadoria, e eu queria era conhecer o mundo logo. Em comum, temos o desejo de prosperar e a capacidade de aprender, mas a noção do que é prosperidade e de como aprendemos é completamente diferente. 

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O que as crianças têm a nos ensinar?

Sabemos hoje que existe uma conexão entre nossas brincadeiras infantis e nosso desejo de transformar o mundo e atuar nele. O brincar nos ajuda a descobrir nossos talentos, que nos levam à excelência e ao bem-estar. Imaginar, tentar, consertar, aprender e refazer são exercícios básicos de uma boa brincadeira e as bases do aprendizado criativo.

A criança nos ensina que a exploração da vida não para e que o agora precisa ser vivido com intensidade. Os adultos se esquecem de como lidar com as incertezas — aliás, buscamos previsibilidade onde não existe.

Por que a criatividade costuma se perder com o decorrer dos anos?

Não acho que ela se perca, e sim que deixamos de usá-la. De modo geral, estamos inseridos em ambientes que não toleram erros, muito menos fracassos. Além disso, com o passar do tempo, acabamos entrando em um modo de seguir a vida baseado em cumprir um roteiro prévio, sem se maravilhar com algo novo. Acho que isso acaba fazendo com que apenas sigamos no piloto automático e que acabemos deixando a criatividade de lado.

Gosto sempre de perguntar para engenheiros como eles eram quando crianças. A maioria me conta das loucuras que fazia desmontando as coisas em casa. Pra onde foi essa curiosidade? Pra onde foi essa capacidade de estranhamento curioso da vida? Temos muitas respostas para isso, mas a principal, ao meu ver, é um modelo de educação que responde às demandas de mercado e não educa para a autonomia e para a solução de problemas. A criatividade é instrumento da resiliência e, como tal, precisa ser nutrida continuamente para florescer.

Qual a importância da criatividade para um trabalho mais saudável?

Pessoas engajadas relatam mais bem-estar no trabalho. Porém, engajamento é reflexo de autonomia, que está diretamente ligada a termos formas mais livres e próprias de atuar e construir nossa forma de atuar. Aí a criatividade opera em alto nível.

Para mim, o futuro do trabalho será o crescimento cada vez maior do job crafting, um modelo em que as pessoas têm mais liberdade para construir suas próprias rotinas de trabalho e realizar ações que produzem sentido, alinhadas aos seus talentos e interesses. De Abraham Maslow à Psicologia Positiva, sabemos que o ápice do desenvolvimento e das necessidades humanas é a busca de sentido pela autorrealização, algo que ocorre apenas quando a criatividade entra na arena.

Vale ressaltar que boa parte da Teoria do Flow é baseada em trabalhos que envolvem criatividade. O próprio Mihaly Csikszentmihalyi, criador do conceito, cita: “Pessoas criativas são bem diferentes, mas tem algo em comum. Amam e divertem-se com o que fazem.”

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