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O mito do trabalho perfeito

Embora algumas empresas discutam suas vulnerabilidades, o discurso-padrão é o de que as companhias nunca falham. Mas essa mentalidade é prejudicial

Por Nataly Pugliesi Atualizado em 15 out 2021, 08h30 - Publicado em 15 out 2021, 07h00

Este texto faz parte da edição 76 da VOCÊ RH

Faz parte da natureza humana a incansável busca por relacionamentos ideais. Em se tratando de carreira ou relações românticas, a tendência é sempre a mesma: apego à falível ideia de que há alguém, algo ou uma empresa — seja qual for o objeto de desejo — perfeita. No entanto, perfeição significa “ausência de falhas ou defeitos, em relação a um padrão ideal”, e isso não existe, pois ninguém nem lugar nenhum é infalível. “A perfeição é irreal e inalcançável. O componente das organizações são as pessoas, que trazem em suas bagagens as falhas. Portanto, não haveria a possibilidade de existir uma empresa perfeita”, afirma Adriana Prates, CEO e fundadora da consultoria de recrutamento Dasein Executive Search.

Embora algumas companhias já comecem a expor um pouco mais nas redes sociais suas imperfeições, reconhecendo seus erros, e estimulem que os líderes demonstrem vulnerabilidade, ainda há o discurso estereotipado de que aquele trabalho é o melhor do mundo ou de que aquela empresa é a melhor de todas. Apesar de ser louvável a busca por construir um excelente ambiente de trabalho, disseminar a ilusão de perfeição pode ser altamente prejudicial para as empresas, culminado em funcionários frustrados com a realidade, que muitas vezes pode ser mais dura do que o prometido.

Quem nunca ouviu aquele dito popular que é atribuído ao filósofo chinês Confúcio: “Trabalhe com o que você ama e nunca mais precisará trabalhar na vida”? Impactante e motivador, mas extremamente romantizado. Encontrar seu ikigai (conceito japonês que pode ser traduzido pela frase “o que te faz levantar da cama todos os dias”), ou o famoso propósito, é relevante para a autorrealização; no entanto, por melhores que sejam as condições, trabalho é trabalho. Isso significa que haverá responsabilidades, decepções, chateações, pressão e outros atributos inerentes à vida humana, seja o profissional um trabalhador corporativo ou um empreendedor de seu negócio dos sonhos.

Não há nada de errado em aspirar fazer algo que você ama — todo mundo quer uma carreira que seja gratificante e que pague as contas. “O problema é ter uma visão idealizada do que constitui esse emprego perfeito, pois nenhum trabalho tem desvantagens zero, e não é realista esperar a perfeição de uma função específica, do empregador ou de si mesmo. É um projeto do impossível”, diz Anderson Sant’Anna, professor na FGV-Eaesp e pós-doutor em teoria psicanalítica.

E tem sido nesse sentido que algumas empresas ainda estão se equivocando ao trabalhar o employer branding com muitos filtros e retoques, deixando de lado as fraquezas e oportunidades que também podem ser bastante atrativas para os profissionais que querem ser protagonistas das mudanças. Impulsionadas pelas listas das mais amadas, das melhores e outros rankings, não é raro que companhias percam a mão e vendam realidades fictícias. O segredo é expor a atratividade, potencializando o que há de bom, mas também deixar aparentes as oportunidades de melhoria, convidando os profissionais a evoluir junto com a empresa. Dessa forma, o processo de atração é mais assertivo. “É possível sonhar e realizar lugares incríveis; agora, perfeito nunca será. Almejar ser a empresa mais admirada é demodê. O que se espera hoje é que as pessoas digam que a empresa faz sentido em sua vida. Quando a companhia atinge isso, tem engajamento e resultado. Será vista como um organismo que tem uma reputação orgânica, que não precisa investir em employer branding irreal”, afirma Marcio Fernandes, fundador da Thutor, consultoria especializada em cultura organizacional e gestão estratégica com pessoas e conselheiro independente.

Este trecho faz parte da edição 76 (outubro/novembro). Para ler o texto completo, clique aqui para assinar VOCÊ RH 

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