Como os líderes impactam a gestão da parentalidade nas organizações
Confira cinco recomendações para incentivar e inspirar sua equipe a equilibrar trabalho e tempo com as crianças.

Nos últimos dez anos, desempenhei o papel de parceiro de RH (HRBP) em empresas como MRS Logística, Avon e Diageo. Tive a oportunidade de dialogar com muitas lideranças de diversas áreas de operação e produção, marketing, vendas, TI e RH. Uma constatação que sempre me marcou foi a dificuldade que muitas lideranças têm em liderar pelo exemplo.
Quando falamos sobre parentalidade, é essencial que os líderes criem um ambiente que apoie as figuras parentais a serem mais presentes na vida de seus filhos e filhas. Muitas vezes, observamos lideranças que ficam até tarde no escritório e que raramente são vistas saindo no meio do expediente para cuidar de algum aspecto da família. No lugar, valorizam horas extras, incentivando um ciclo que pode ser prejudicial. Reflexo disso é ver pessoas de dentro da organização frequentemente sentindo que devem sacrificar momentos valiosos com suas famílias para se adequar a um modelo que não condiz com suas prioridades. O resultado: pane de saúde mental no trabalho dentro das organizações.
Uma experiência marcante surgiu durante uma avaliação de desempenho que pude presenciar, na qual uma pessoa da alta liderança da empresa fez uma afirmação que ecoa até hoje na minha mente: “Essa funcionária precisa ser recompensada e ter uma avaliação diferenciada porque ela é a última a sair do escritório. Eu a vejo aqui entregando sangue e suor, se for necessário, pelos resultados da empresa”. Essa declaração, repleta de energia, estabeleceu um padrão que, involuntariamente, criou um abismo para aqueles que não poderiam ou não deveriam ficar até mais tarde, deixando o resto da liderança ali presente insegura sobre a possibilidade de defenderem seu time perante esse padrão estabelecido. Nesse momento, é importante a pessoa do RH pontuar o impacto desse comentário e como é preciso tomar cuidado com padrões estabelecidos, que podem ser nocivos a determinados grupos.
Os impactos na vida familiar são especialmente preocupantes. Para muitos, a pressão para se dedicar excessivamente no trabalho vem em detrimento de momentos importantes com os(as) filhos(as) e com a família, e sabemos que nem todos têm o suporte necessário em casa para equilibrar essa carga. Um reconhecimento essencial é que, frequentemente, são as mulheres que desempenham papéis de apoio, permitindo que seus parceiros permaneçam mais tempo no trabalho.
A revolução necessária nas políticas de parentalidade
Refletindo sobre esses desafios, as lideranças devem se perguntar como podem melhorar as políticas de parentalidade existentes e apoiar as figuras parentais de maneira eficaz e contínua. Empresas como o Grupo Boticário demonstram que o verdadeiro engajamento das lideranças em compreender as jornadas desses pais contribui significativamente para a retenção e a satisfação do time interno.
Para enfrentar as dificuldades, desde resistência cultural até carência de treinamento, é imperativo que as organizações invistam em capacitações específicas que equipem as lideranças com ferramentas para lidar melhor com as complexidades da parentalidade. Workshops sobre comunicação empática e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal podem ser passos significativos nessa direção.
Posso aqui citar a experiência no decorrer de nossa atuação nas organizações. Por meio de palestras e workshops de desenvolvimento de lideranças, propomos uma abordagem que coloca a potência da parentalidade no centro da discussão. As lideranças têm em suas mãos um verdadeiro tesouro: pais e mães que desempenham um dos maiores papéis de desenvolvimento de competências no mundo, que é oferecer cuidados aos seus filhos e filhas. Camila Antunes, cofundadora da Filhos no Currículo e colunista da VC S/A, cita Simon Sinek, “o verbo mais próximo de liderar é parentar”, e aponta a importância de as lideranças conseguirem extrair o melhor de seus colaboradores, tanto pais quanto mães, haja vista serem aqueles que cultivam uma compreensão profunda das dinâmicas entre trabalho e família.
Um exemplo inspirador dessa liderança é Lorena Leonardi, líder de Talento e Transformação de RH na Diageo América Latina. Em 2024, ela foi selecionada pela Involve para compor uma seleta lista global com as 100 mulheres executivas que devem ser seguidas. Sua habilidade em lidar com desafios e promover um ambiente de trabalho equilibrado se destaca em um contexto repleto de pressões, estabelecendo um modelo de liderança que valoriza a parentalidade. Com a chegada de sua segunda maternidade, mais de dez anos após a primeira, Lorena se consolida como uma referência em liderança pró-parentalidade na América Latina.
A mudança começa na liderança
A verdadeira mudança na gestão da parentalidade começa com lideranças dispostas a aprender, se adaptar e se arriscar a quebrar o status quo. Essas lideranças têm o potencial de atuar como catalisadoras para uma transformação mais abrangente nas organizações, promovendo um legado de empatia e suporte. Nesse contexto, aqui estão cinco recomendações para que o time de recursos humanos possa conduzir as lideranças, a fim de impactar positivamente a cultura de parentalidade em suas empresas:
Seja Walk the Talk
É fundamental que as lideranças demonstrem suas convicções por meio de ações concretas. Quando elas vivem os valores que promovem, inspiram todas as pessoas a abraçarem a parentalidade como parte integral de suas vidas.
Coloque a lente da parentalidade como potência
Encarar a parentalidade como um ativo valioso significa reconhecer que experiências familiares são sementes para o desenvolvimento de habilidades essenciais e competências que enriquecem o ambiente de trabalho.
Advogue entre pares que estão se desenvolvendo
É importante engajar e educar colegas que podem não entender completamente a importância de uma liderança que acolhe a parentalidade. Criar um espaço de diálogo e aprendizado mútuo fortalece a cultura organizacional.
Inspire-se em lideranças que realmente estão fazendo a diferença
Ao observar e aprender com pessoas que implementam práticas eficazes em favor da parentalidade, as lideranças podem adotar estratégias que se mostraram bem-sucedidas, garantindo que suas ações gerem impacto duradouro.
Empatia, empatia e empatia!
Colocar a empatia como prioridade na liderança é essencial para promover um ambiente de respeito e equidade. Compreender as realidades de cada pessoa e oferecer ferramentas e oportunidades adequadas é o caminho para um local de trabalho realmente inclusivo para figuras parentais.