Assine VOCÊ RH por R$2,00/semana
Continua após publicidade

Alta no consumo de remédios para dormir ou produzir mais preocupa empresas

Uso indiscriminado pode causar de eventos cardiovasculares e crises de ansiedade até dependência química e psicose

Por Romy Aikawa
Atualizado em 13 mar 2023, 09h56 - Publicado em 3 fev 2023, 09h30
D

e 2018 a 2022, a quantidade de caixas de um medicamento que estimula o sistema nervoso central, o dimesilato de lisdexanfetamina, vendidas pelos laboratórios para as farmácias passou de 618 mil para 1,4 milhão. A informação é do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma) e soma as apresentações do produto nas concentrações de 30, 50 e 70 miligramas. A substância, princípio ativo do Venvanse, faz parte de um grupo com outros dois remédios para o tratamento do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH): a Ritalina e o Concerta.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que está impedida de fornecer números relativos à comercialização do Venvanse, mas dá para ter uma ideia da procura: o medicamento chegou a sumir das prateleiras das farmácias de São Paulo e do Rio de Janeiro em meados de 2022. Como os demais, ele só pode ser vendido mediante receita amarela, pelo risco alto de indução de tolerância e dependência. No início do ano passado, a farmacêutica Takeda, que adquiriu o produto com a compra do laboratório Shire em 2018, emitiu até um comunicado orientando a utilização correta.

Mas esses estimulantes vêm sendo usados indevidamente, por quem não tem nenhum transtorno. É o mesmo mal que atinge outra classe de fármacos: os hipnóticos chamados de drogas-z, com destaque para o hemitartarato de zolpidem, indutor do sono presente no mercado brasileiro desde o final dos anos 2000. Indicado para o tratamento de curto prazo (no máximo quatro semanas) da insônia, o medicamento virou moda e tem sido consumido como balinha.

Continua após a publicidade

Para comprá-lo é preciso apresentar a receita branca em duas vias para concentrações até 10 miligramas ou a azul, pelo risco moderado de dependência, para as versões de 12,5 miligramas. A comercialização regular da substância no varejo farmacêutico passou de 10,5 milhões de caixas em 2017 para mais de 19 milhões em 2021, de acordo com a Anvisa.

Os dados sobre o uso de medicamentos sem prescrição médica são limitados. Mas o aumento dos relatos nas redes sociais de quem toma estimulantes para se manter acordado e ter melhor performance cognitiva ou recorre a drogas não prescritas para dormir com facilidade ou experimentar alucinações tem levado as empresas a prestar atenção ao problema.

Continua após a publicidade

Alerta de perigo

Lidar com a dependência de medicamentos por funcionários costuma ser complicado. Porque dificilmente o usuário vai se expor na empresa. “Mas é importante encontrar meios de acompanhar os casos suspeitos — sem invadir a privacidade de ninguém —, porque a dependência pode se consolidar e resultar em desfechos ruins”, afirma Lucas Gandarela, psiquiatra e pesquisador do Laboratório de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP).

Ele sugere ficar atento a sinais de abstinência. “Alguns são o contrário dos efeitos esperados com o uso do medicamento. No caso do Venvanse, é possível que a pessoa apresente pensamento lento, letargia, desatenção, cansaço. Já com o zolpidem, os sinais são parecidos com os de dependentes do álcool, como sensibilidade à luz, tremedeira, perda de memória e suor excessivo. Diante deles, a melhor providência é recomendar ao funcionário que se consulte com um psiquiatra para entender o que os sintomas indicam”, diz Lucas. Informar é outra ação que o médico considera fundamental. “As pessoas precisam saber que, ao ingerir remédios sem o diagnóstico, a prescrição e a dose corretos, estão sujeitas a efeitos adversos graves”, afirma.

O uso indiscriminado do Venvanse pode, por exemplo, aumentar o risco de sofrer um evento cardiovascular. “Esse tipo de medicamento estimula o sistema nervoso central, o que eleva a pressão sanguínea e a frequência cardíaca”, diz Lucas. “Assim, é possível que a pessoa acabe desenvolvendo arritmia e, se já tiver uma condição para um problema do coração, facilite a ocorrência de algo ainda pior. Sem falar de crises de ansiedade, dificuldade para dormir, agitação.” Como o Venvanse age aumentando a disposição no cérebro de noradrenalina e de dopamina, neurotransmissores responsáveis por colocar o corpo em estado de “luta ou fuga”, o abuso pode abrir espaço até para a síndrome do pânico e quadros paranoicos, em que o usuário se sente perseguido, vê vultos e tem comportamento hostil. A maior capacidade de concentração que resulta do processo, que deu ao fármaco a fama de potencializador da mente, não conta com respaldo científico para todos os públicos. Segundo o psiquiatra, não há evidências de que a substância beneficie quem não tem déficit de atenção.

Continua após a publicidade

Plena consciência

Os efeitos colaterais do zolpidem e demais drogas-z são igualmente danosos. Mas, à época em que começaram a se popularizar no Brasil, em 2011, mal se sabia que poderiam levar ao vício. Isso porque o discurso era de que tais substâncias eram uma alternativa segura aos benzodiazepínicos, calmantes como os conhecidos alprazolam (Frontal), clonazepam (Rivotril) e diazepam (Valium). “Está bem estabelecido pela ciência que, em doses altas e com o uso prolongado, os benzodiazepínicos levam à tolerância e à dependência, razão pela qual há muito cuidado com sua prescrição”, afirma o psiquiatra Thiago Marques Fidalgo, professor do departamento de psiquiatria da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp). “Já no caso do zolpidem, a postura foi diferente. Como ele supostamente não apresentava esse risco, rapidamente se tornou uma das principais indicações para o tratamento da insônia, até que, de quatro anos para cá, surgiram diversos casos de dependentes. Ainda não temos estatísticas confiáveis, mas a quantidade, hoje, é impressionante. Existem, inclusive, dados do Centro Nacional de Estatísticas de Saúde norte-americano que apontam mortes por overdose de drogas-z.”

O médico destaca que não há dúvida quanto à eficácia da substância quando devidamente prescrita e utilizada. O zolpidem tem uma ação mais específica que os benzodiazepínicos, o que resulta em menos efeitos adversos. Além disso, fica menos tempo no organismo. O problema está no uso indiscriminado, que traz outro perigo. “Se a pessoa toma o medicamento e não vai direto para a cama, como recomendado, pode começar a realizar coisas sem plena consciência do que está fazendo”, diz Thiago. “Eu mesmo atendi pacientes que efetuaram compras, trocaram mensagens e até mandaram nudes sob efeito do remédio. O risco de exposição social é muito grande.” O alerta está inclusive na bula.

Gráfico Em Alta
(VOCÊ RH/VOCÊ RH)

Para o psiquiatra, a abordagem do RH das empresas deve ter caráter preventivo. “A dependência não surge de uma hora para a outra”, afirma. “Ela vai se estabelecendo conforme a quantidade, o tempo de uso, o metabolismo de cada um — então trazer esclarecimentos sempre ajuda. Tem gente que nem sabe que é o psiquiatra que trata problemas do tipo.” Algumas das boas iniciativas corporativas são campanhas de conscientização sobre a importância do cuidado com a saúde, palestras sobre remédios que podem causar dependência, divulgação de informações sobre a higiene do sono e promoção de práticas como o mindfulness, sugere Thiago.

Produtividade em revista

Todo mundo sabe que, independentemente do cuidado dos especialistas ao prescrever hipnóticos e psicoestimulantes, existe um mercado informal bastante ativo. E, no Brasil, a cultura da automedicação está bastante disseminada: o hábito é comum a 89% dos brasileiros com 16 anos ou mais, de acordo com uma pesquisa realizada no ano passado pelo Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ) em parceria com o Datafolha. “Sempre há quem siga a dica de um parente ou conhecido que teve sintomas parecidos com os que apresenta, compre o medicamento por via informal, comece com o uso esporádico e, quando percebe, já está ingerindo a substância de maneira rotineira”, afirma o psicólogo Marcelo Rossoni da Rocha, mestre em psiquiatria e ciências do comportamento pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pesquisador no Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas do Hospital das Clínicas de Porto Alegre (CPAD/HCPA).

Gráfico Apoio Indireto
(VOCÊ RH/VOCÊ RH)

Além do aspecto cultural, a pandemia, segundo o psicólogo, contribuiu para reforçar esse comportamento de risco. Antes, a redução dos empregos estáveis, o acirramento da competitividade, a pressão por produtividade e o excesso de trabalho já vinham impactando o desempenho de muita gente. Então veio o medo do desemprego, o home office, a necessidade de ficar mais tempo conectado e uma rotina que não delimita o horário profissional. E tudo isso sobrecarregou os profissionais de tal maneira que muitos passaram a apelar aos remédios como estratégia para lidar com a situação. Alguns entram em um círculo vicioso. “Para obter melhor performance e se manter por mais horas trabalhando, a pessoa toma o Venvanse. Aí chega a noite, o efeito da substância ainda está ativo e, para conseguir dormir, ela usa o zolpidem”, diz Marcelo.

Considerando esse quadro, o pesquisador defende que as empresas busquem revisar o grau de exigência em relação à produtividade dos funcionários. “Existem muitos profissionais acumulando funções que deveriam ser de outros. Uma revisão pode diminuir essa pressão e ajudar as pessoas a se sentirem menos sobrecarregadas”, afirma. Falar mais sobre saúde mental e oferecer benefícios que favoreçam o acesso a tratamentos também são iniciativas importantes.

Gráfico Efeitos Colaterais
(VOCÊ RH/VOCÊ RH)
Compartilhe essa matéria via:

Assinante: a reportagem completa pode ser lida no app ou no Go Read

Este trecho faz parte de uma reportagem da edição 84 (fevereiro/março) de VOCÊ RH. Clique aqui para se tornar nosso assinante

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

As empresas estão mudando. O tempo todo.

Acompanhe por VOCÊ RH.

MELHOR
OFERTA

Digital Completo
Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 2,00/semana*

ou

Impressa + Digital
Impressa + Digital

Receba Você RH impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 12,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$96, equivalente a R$2 por semana.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.