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Como expandir a capacidade da sua mente

Tiago Forte afirma, em "Criando um Segundo Cérebro", que digitalizar dados relevantes com disciplina poderia aumentar a produtividade e criatividade.

Por Redação
6 out 2023, 10h44

Tudo começou com uma leve dor de garganta. Ao longo de meses, Tiago Forte (autor americano de mãe brasileira) viu seu organismo tomado por uma doença misteriosa. Foi perdendo a capacidade de falar, engolir e até de rir. Os médicos, cada um pedindo exames diferentes, não chegavam a um consenso. Um dos medicamentos que Forte recebeu o fazia ter graves perdas de memória. “Eu era um jovem de 24 anos com a mente de um idoso de 80.”

Até que teve o que chamou de uma epifania. Resolveu assumir a responsabilidade pela sua saúde e começou a digitalizar todas as informações sobre sua condição e os tratamentos que havia recebido. Organizou os dados e passou a estudá-los, procurando padrões. “Eu me transformei no gerente de projeto do meu problema de saúde.” Compartilhando suas anotações em arquivos de computador com seus médicos, acabou descobrindo que sofria de um distúrbio que afeta os músculos que agem sobre a voz – uma condição que não seria resolvida com remédios, mas com cuidados com o corpo.

Desde então, ficou obcecado pelo potencial da tecnologia para canalizar as informações ao seu redor. E percebeu que a rotina de anotar todo tipo de dado relevante, seja num aplicativo ou num documento na nuvem, poderia ser uma poderosa ferramenta de trabalho. Concluiu que quem explora bem os recursos tecnológicos de modo a estender sua capacidade de lembrar e organizar informações se torna um tipo de mutante: ganha um cérebro a mais. E, claro, ter esse poder cognitivo ampliado é um grande diferencial – seja para seus assuntos pessoais, seja para se destacar na carreira.

O trecho a seguir da obra de Tiago Forte, Criando Um Segundo Cérebro, revela um pouco de como esse uso da tecnologia pode substituir antigos padrões, conectar ideias e explorar todo o seu potencial criativo.

Criando um segundo cérebro

Uma pesquisa da Microsoft mostra que o funcionário americano médio gasta 76 horas por ano procurando anotações, itens ou arquivos perdidos. E um relatório da International Data Corporation descobriu que um profissional do conhecimento gasta 26% do dia procurando e consolidando informações espalhadas por diversos sistemas. E, por incrível que pareça, apenas 56% das vezes eles conseguem encontrar as informações necessárias.

É hora de atualizar nossa memória paleolítica. É hora de reconhecer que não podemos “usar a cabeça” para armazenar tudo que precisamos saber, e de terceirizar para máquinas inteligentes o trabalho de lembrar.

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Precisamos reconhecer que as demandas cognitivas da vida moderna aumentam a cada ano, mas ainda estamos usando o mesmo cérebro de 200 mil anos atrás, quando os humanos modernos surgiram nas planícies da África Oriental.

Toda vez que gastamos energia nos esforçando para recordar coisas, estamos deixando de utilizar a mente para aquilo que só os humanos são capazes de fazer: inventar, elaborar histórias, reconhecer padrões, seguir a intuição, trabalhar em colaboração com outras pessoas, investigar novos assuntos, fazer planos, testar teorias.

Cada minuto que desperdiçamos tentando mentalizar tudo que temos a fazer é um minuto a menos que temos para atividades mais importantes, como cozinhar, cuidar de nós mesmos, praticar hobbies, descansar e passar tempo com quem amamos.

Só há um problema: toda mudança na forma de usar a tecnologia também requer uma mudança na forma de pensar. Para de fato aproveitar o poder de um Segundo Cérebro, precisamos ter um novo relacionamento com a informação, com a tecnologia e até com nós mesmos.

O legado do livro de lugar-comum

A prática de anotar os pensamentos para entender o mundo vem de longa data. No decorrer dos séculos, artistas e intelectuais, de Leonardo da Vinci a Virginia Woolf, de John Locke a Octavia Butler, têm anotado as ideias que consideram mais interessantes nos livros de lugar-comum.

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Popularizado num período anterior ao da sobrecarga de informações – a Revolução Industrial do século 18 e o início do século 19 –, o livro de lugar-comum era mais do que um diário ou um lugar onde a pessoa anotava suas reflexões pessoais: era uma ferramenta de aprendizado que a classe escolarizada usava para entender um mundo em rápida mudança e compreender qual era o seu lugar nele.

Em A Questão dos Livros, Robert Darnton, historiador e ex-diretor da Biblioteca da Universidade de Harvard, explica o papel dos livros de lugar-comum:

“Ao contrário dos leitores modernos, que seguem o fluxo de uma narrativa do começo ao fim, os ingleses do início da era moderna liam de forma intermitente, pulando de um livro para outro. Dividiam os textos em fragmentos, que agrupavam em novos padrões ao transcrevê-los em seções diferentes de seus cadernos. Então liam de novo o que tinham copiado e recombinavam os padrões à medida que acrescentavam mais trechos. Assim, ler e escrever eram atividades inseparáveis. Pertenciam a um esforço contínuo de entender as coisas, pois o mundo era repleto de sinais: era possível transitar por ele usando a leitura e, ao registrar o que lia, você criava seu próprio livro, marcado com sua personalidade.”

As pessoas instruídas utilizavam os livros de lugar-comum como uma ferramenta para interagir com o mundo. Recorriam a eles durante as conversas e os usavam para conectar conhecimentos de diferentes fontes e inspirar o próprio pensamento.

Como sociedade, todos nós poderíamos nos beneficiar do equivalente moderno do livro de lugar-comum. Atualmente, a mídia foca no que é novo e público – a mais recente controvérsia política, o novo escândalo de alguma celebridade ou o meme do dia. Ressuscitar o livro de lugar-comum nos permite conter essa maré, alterando nosso relacionamento com a informação e passando a focar no que é atemporal e privado.

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Em vez de consumir quantidades cada vez maiores de informação, poderíamos adotar uma abordagem mais paciente e ponderada que favorecesse a releitura, a reformulação e o trabalho com as implicações das ideias ao longo do tempo. Isso não só poderia levar a discussões mais civilizadas sobre os assuntos importantes do dia como também poderia preservar nossa saúde mental e evitar que nossa atenção fosse tão fragmentada.

Fazer isso não significa retornar ao passado. Agora nós temos a oportunidade de trazer a tradição dos livros de lugar-comum para a Era Moderna. Temos a chance de transformar essa prática histórica em algo muito mais flexível e conveniente.

O livro de lugar-comum digital

Ao migrar para o mundo digital, nossas anotações e observações podem ser pesquisadas, organizadas e sincronizadas em todos os nossos dispositivos e armazenadas em backup na nuvem para proteção. Em vez de fazer anotações aleatórias em pedaços de papel e torcer para encontrá-las mais tarde, podemos desenvolver nosso próprio “cofre de conhecimento”, para que sempre saibamos exatamente onde procurar.

Certa vez o escritor e fotógrafo Craig Mod escreveu: “Existe uma oportunidade escancarada de consolidar nossa miríade de marginália num livro de lugar-comum ainda mais robusto. Ele seria pesquisável, acessível, facilmente compartilhável e incorporável ao texto digital que consumimos”.

Esse livro de lugar-comum digital é o que chamo de Segundo Cérebro.

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Pense nele como a combinação de um caderno de estudo, um diário pessoal e um bloco de rascunho para novas ideias. É uma ferramenta multiuso que pode se adaptar às suas necessidades ao longo do tempo. Nos estudos (seja na faculdade, no MBA ou em outro curso qualquer), pode ser usado para fazer anotações. No trabalho, pode ser usado para organizar projetos. Em casa, pode ser usado na administração doméstica.

Qualquer que seja sua forma de usar o Segundo Cérebro, ele funcionará como uma coletânea particular de conhecimentos projetada para servir a uma vida inteira de aprendizado e crescimento, e não só em um único caso de uso. Um quadro-negro onde você pode rascunhar suas ideias e trabalhar em colaboração com outras pessoas.

Assim que você perceber que usamos ferramentas digitais naturalmente para estender nosso pensamento além dos limites da nossa cabeça, começará a enxergar Segundos Cérebros por toda parte.

Um aplicativo de calendário é uma extensão da capacidade do seu cérebro de lembrar eventos, garantindo que você nunca esqueça um compromisso. Seu celular é uma extensão da sua capacidade de se comunicar, permitindo que sua voz atravesse oceanos e continentes. O armazenamento em nuvem é uma extensão da memória do seu cérebro, permitindo que você guarde milhares de gigabytes e os acesse de qualquer lugar.

(…) 

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Ao longo do século 20, diversos estudiosos e inovadores apresentaram suas visões de como a tecnologia poderia mudar a humanidade para melhor. Eles sonhavam em criar uma “mente estendida”, que ampliasse o intelecto humano e nos ajudasse a resolver os maiores problemas enfrentados pela sociedade. A possibilidade de tamanha maravilha tecnológica brilhou como um farol para o futuro, prometendo destravar o conhecimento preso a livros velhos e empoeirados e torná-lo universalmente acessível e útil.

Essas ideias inspiraram grande parte da tecnologia que usamos no dia a dia, mas, apesar de todas as invenções tecnológicas da Era da Informação, estamos mais longe do que nunca de sua visão original. Todos os dias passamos horas interagindo com postagens de redes sociais que serão esquecidas em minutos. Salvamos matérias para ler mais tarde, mas raramente encontramos tempo para isso. Criamos documentos que são usados uma única vez e depois abandonados no abismo das nossas caixas de e-mail ou pastas de arquivos.

Chegamos a um ponto em que a tecnologia está tão avançada e amigável que podemos integrá-la ao nosso cérebro biológico. Os computadores estão menores, mais poderosos e mais intuitivos, a ponto de serem inegavelmente um componente essencial da forma como pensamos.

Chegou a hora de concretizarmos a visão dos pioneiros da tecnologia, de que todos deveriam ter uma mente estendida não só para lembrar mais e aumentar a produtividade, mas para viver melhor.

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