Empresas estão falhando na comunicação interpessoal. Por que isso é grave?
Essa habilidade é estratégica para costurar planos, provocar interações entre departamentos e criar poder de adaptação. Mas está sendo negligenciada. Entenda.

Em um mundo cada vez mais marcado pela interação entre múltiplos fatores — humanos, máquinas e natureza —, a comunicação interpessoal no ambiente corporativo emerge como um dos pilares para o sucesso organizacional. Projetos fracassam não por falta de competência técnica, mas por falhas no diálogo entre líderes e liderados, ou entre seus executivos e prestadores de serviço.
Segundo previsões da plataforma WGSN, que analisa diversas tendências de consumo, estilo de vida e design de produtos, vamos entrar na era da policrise, quando incertezas globais amplificam sentimentos de confusão e frustração. Nesse contexto, a comunicação se torna uma ferramenta estratégica para costurar planos, provocar interações entre departamentos e construir pontes entre diferentes partes interessadas. Ela é essencial para que organizações desenvolvam adaptabilidade – uma habilidade imprescindível frente a novos modelos de trabalho e às constantes transformações tecnológicas.
A pesquisa ABERJE – Cultura de Dados, Mensuração e Inteligência Artificial na Comunicação, de outubro de 2024, que tratou de questões sobre a gestão das ações de Comunicação, e as intersecções entre a área de Comunicação e sua Cultura de Dados, com representantes de cem empresas, sendo que 68% das respondentes têm mais de mil funcionários, e outras 21% têm mais de 10 mil, trouxe um dado que deveria estar entre as prioridades de suas lideranças, o desenvolvimento das pessoas, mas parece que está longe das ações de governança corporativa.
Perguntados sobre “a atuação das ações de comunicação da sua organização”, os índices que mais ganharam votos foram gestão de reputação e de valor da marca junto ao público externo, com 88%, seguido de prevenção e gestão de crises de reputação junto a todos os públicos, com 81%; enquanto na berlinda estão desenvolvimento do capital humano da organização, com 26%, e definição de estratégias de gestão de processos, custos e pessoas, com 30%. Mas o capital humano não deveria vir primeiro, pois não são as pessoas que fazem os negócios prosperar?
O poder de se expressar com honestidade
A comunicação interpessoal eficaz exige mais do que clareza e estratégia. Ela demanda autenticidade e, muitas vezes, coragem. Como a pesquisadora e professora da Universidade de Houston Brené Brown enfatiza em suas pesquisas, ser vulnerável não é um sinal de fraqueza, mas uma expressão de força. No ambiente de trabalho, isso significa criar espaços nos quais líderes e equipes possam se expressar com honestidade, sem medo de julgamentos ou represálias.
Essa abordagem traz vários benefícios. Ela fortalece as conexões entre os membros da equipe e ajuda a promover um ambiente colaborativo e de confiança. Ao admitir falhas e dificuldades, líderes ainda demonstram humanidade, o que inspira respeito e motiva as pessoas a contribuir com suas ideias e perspectivas sem receios.
A vulnerabilidade, aliada à comunicação clara e estratégica, é um diferencial competitivo. Empresas que reconhecem seus erros e comunicam seus desafios com transparência se destacam em um cenário no qual o greenwashing e a falta de coerência entre discurso e prática são amplamente criticados. Mostrar que a rota está sendo recalculada é tão importante quanto celebrar os sucessos.
É importante lembrar que a coragem de enfrentar incertezas e promover uma comunicação baseada na verdade pode ser o divisor de águas para transformar equipes e empresas. Em vez de temer o erro, precisamos abraçar o aprendizado contínuo, reconhecendo que cada interação interpessoal é uma oportunidade de construir um ambiente de trabalho mais humano e produtivo.
* Luli Liebert é jornalista, mentora do projeto de networking C.R.I.M.E. (Conexões Reais e Interpessoais de Mentes Empreendedoras).