O programa da Ford para desenvolver soft skills entre engenheiros
O time brasileiro se integrou ao ecossistema global de tecnologia da marca – o que exigiu transformar mais técnicos em gestores por aqui. Entenda o desafio.

Soft skills não costumam ser o supertrunfo de engenheiros. Então a transição desses profissionais para cargos de chefia mais elevados sempre vem com um tanto de desafio – seja para os próprios técnicos, seja para a área de RH, que precisa ser facilitadora dessa evolução. É justamente o que vem acontecendo com a Ford no Brasil.
A partir de 2021, a organização no país passou a fazer parte da engenharia global da marca, com um modelo de negócio baseado no desenvolvimento de tecnologia e exportação de inteligência automotiva. E a equipe daqui vem dando show: já é responsável por um terço das tecnologias presentes nos veículos Ford ao redor do mundo. Já desenvolveu, por exemplo, sistemas sofisticados, como um que permite dirigir usando apenas o acelerador, sem usar o pedal do freio, e bancos que fazem massagem no motorista – recurso muito bem-vindo em viagens de longa distância.
Esse salto em inovação e a integração ao ecossistema global da marca, no entanto, exigiram reformulações por aqui. Principalmente a construção de novas instalações dedicadas a pesquisa e desenvolvimento, e a ampliação do time de engenheiros. Nos últimos três anos, o número desses profissionais aumentou de 700 para 1.500, entre as unidades de São Paulo e Bahia.
E aí não tem jeito, com mais funcionários, há necessidade também de mais gestores. É quando surge o desafio mencionado no começo deste texto: como transformar mestres em hard skills em gestores que navegam bem entre as habilidades comportamentais?
A questão é ainda mais complexa, porque esses profissionais agora lidam constantemente com seus pares de mercados que falam outras línguas e têm culturas diferentes da nossa. Um novo líder pode estar chefiando uma equipe que vai desenvolver um carro que será lançado primeiro no exterior… não no Brasil.
Programa sob medida
Para isso, a área de RH da Ford no país criou um programa-piloto de desenvolvimento focado especificamente nos profissionais de engenharia que acabaram de assumir um cargo de gestão.
“É um programa conciso ainda, mas que em 2025 deve envolver cerca de cem engenheiros que sejam novos líderes”, afirma Fernanda Ramos, diretora de RH da Ford. E esse modelo personalizado de desenvolvimento tem alguns pilares voltados para essa primeira experiência de gestão: como gerenciar times multidisciplinares? Como lidar com as diferenças de cultura num ecossistema global? Como fazer conexões com o pessoal de fora? Como estabelecer jornadas diferentes de trabalho para os subordinados?… Habilidades comportamentais, enfim.
“Também faz parte desse programa criar um ambiente seguro dentro da organização, para que os novos gestores se sintam à vontade para discutir as dificuldades que estiverem enfrentando”, aponta Fernanda.
O trabalho ainda incluiu desenvolvimento em termos técnicos de inglês, para facilitar a conexão dos brasileiros com a corporação nos Estados Unidos. “Afinal, fazer uma apresentação para o americano é muito diferente de se comunicar com profissionais latinos, por exemplo”, aponta a executiva. “São maneiras distintas de falar e de se posicionar também. Por isso, desenhamos o programa de modo que ele entre muito nas necessidades específicas dos engenheiros. Vejo que nosso papel, como RH, é entregar programas cada vez mais construídos para o que cada público dentro da empresa precisa.”
Os técnicos com menos jogo de cintura para lidar com pessoas agradecem.
Este texto é parte da edição número 96 (fevereiro e março) da Você RH. Clique aqui para conferir outros conteúdos da revista impressa.