IA e igualdade de gênero: por que a participação das mulheres na criação da tecnologia é urgente
Ampliar a presença feminina no desenvolvimento e utilização dessas ferramentas é uma questão de responsabilidade na inovação.
À medida que a inteligência artificial se consolida como uma das tecnologias mais transformadoras do nosso tempo, surge uma pergunta inevitável: quem está construindo as ferramentas que cada vez mais influenciam decisões econômicas, sociais e profissionais? A resposta revela um desafio importante para o futuro da inovação e para a igualdade de gênero.
Historicamente, mulheres estiveram sub-representadas nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática. No campo específico da inteligência artificial, esse desequilíbrio é ainda mais evidente. De acordo com o relatório “Global Gender Gap Report 2024”, do Fórum Econômico Mundial, apenas cerca de 22% dos profissionais de IA no mundo são mulheres. Em algumas áreas mais técnicas, como engenharia de machine learning, o percentual é ainda menor.
Essa baixa participação feminina na criação das tecnologias não é apenas um problema de representatividade. Ela também pode impactar diretamente a forma como os sistemas são desenvolvidos e treinados. Modelos de IA aprendem a partir de grandes volumes de dados e, se esses dados refletem vieses históricos da sociedade, há o risco de que os algoritmos reproduzam ou até intensifiquem essas distorções.
Por isso, ampliar a participação feminina no desenvolvimento dessas tecnologias não é apenas uma questão de equidade; é também uma questão de qualidade e responsabilidade na inovação. Equipes diversas tendem a identificar problemas com mais rapidez, questionar premissas e construir soluções mais completas. Em um campo que moldará decisões cada vez mais críticas, essa pluralidade de perspectivas é fundamental.
Mas o debate sobre gênero e inteligência artificial não se limita a quem cria a tecnologia. Ele também envolve quem a utiliza.
Impacto transversal
Uma pesquisa global da KPMG (2023) sobre adoção de inteligência artificial no ambiente de trabalho identificou que homens relatam utilizar ferramentas de IA com maior frequência do que mulheres. Entre os fatores apontados para essa diferença estão o receio de julgamento, a preocupação em parecer menos competente ou até mesmo o medo de que o uso dessas ferramentas seja interpretado como uma forma de “atalho” intelectual.
Esses comportamentos refletem padrões sociais conhecidos. Diversos estudos sobre carreira mostram que mulheres tendem a avaliar de forma mais criteriosa sua própria performance e a evitar exposição quando não se sentem totalmente seguras, enquanto homens, em média, demonstram maior propensão a experimentar novas ferramentas e assumir riscos.
O problema é que, no contexto atual de transformação digital acelerada, essa diferença de comportamento pode ampliar desigualdades já existentes no mercado de trabalho. Se as mulheres adotarem essas tecnologias em menor ritmo, corremos o risco de ver a ampliação de gaps históricos de carreira e remuneração, justamente em um momento em que a tecnologia poderia ajudar a reduzi-los.
Por isso, falar sobre mulheres e inteligência artificial exige uma abordagem dupla. De um lado, é essencial incentivar e ampliar a presença feminina na criação e no desenvolvimento das tecnologias. De outro, é igualmente importante estimular a adoção estratégica dessas ferramentas por mulheres de todas as áreas profissionais, não apenas nas carreiras técnicas.
A inteligência artificial não é apenas para o setor de tecnologia. Ela está se tornando um recurso transversal, que impacta desde educação e saúde até marketing, direito, comunicação e gestão. Isso significa que o protagonismo feminino nesse novo cenário não depende apenas de formar mais engenheiras ou cientistas de dados, embora isso seja fundamental. Ele também passa por garantir que mulheres em todas as profissões se sintam confortáveis para explorar e incorporar essas ferramentas em seu dia a dia.
O mês da mulher é um bom momento para lembrar que inclusão tecnológica também é uma pauta de igualdade de oportunidades. O futuro do trabalho está sendo redesenhado agora, e a forma como as mulheres irão participar dessa transformação ajudará a definir se a tecnologia será um fator de ampliação ou de redução das desigualdades.
*Luciana Nogueira Minev e Suelen Scop são sócias da Singulari Consultoria, empresa de soluções em cultura organizacional, liderança, inovação e inteligência artificial.





