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Como a qualidade do sono impacta na performance profissional

Apesar do que dizem os influenciadores da alta performance, quem dorme menos comete mais erros, demora para concluir tarefas e tem dificuldade de manter o foco

Por Arthur Feltrin 30 mar 2026, 10h00 • Atualizado em 31 mar 2026, 12h04
Ilustração surrealista, em fundo azul, de uma garota lendo em sua cama antes de dormir. Ao redor, vê-se, flutuando, um móvel de cabeceira, um telefone celular, a Lua, um abajur, uma janela, um travesseiro, um copo de vidro, um tapa olhos e uma escova de dentes.
 (Domi Kronemberger/VOCÊ RH)
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  • Com a minha experiência de médico especialista no assunto, posso falar com propriedade: basta uma noite maldormida para que tenhamos prejuízos na nossa saúde e no nosso dia a dia. Agora, você pode imaginar o impacto disso ao longo dos anos?

    Se o sono não fosse de tamanha importância, o ser humano moderno – tão cheio de atividades pessoais e profissionais – provavelmente estabeleceria uma frequência similar à da presença em aulas de pilates: duas ou três vezes por semana, e tudo bem. Mas, não: sono é mais do que isso, é necessidade diária. Já pensou por que um leão dorme dois dias seguidos antes de ir para a caça? Ele precisa de recuperação muscular, liberação de hormônios e discernimento neurológico.

    Também não foi durante um sonho que aprendi isso. Ao longo de muitos anos da minha prática clínica, eu tratei o sono como um detalhe – algo secundário, ajustável, negociável. Eu acreditava, como grande parte das pessoas, que dormir era simplesmente uma pausa entre momentos produtivos. Hoje, com base na ciência e na observação de centenas de pacientes, afirmo com convicção: essa é uma das grandes ilusões da sociedade, dentro e fora das empresas. Pesquisando muito sobre o assunto, descobri que o sono é o maior alicerce para a nossa longevidade. E algo que faz tão bem, é indolor, fácil, gratuito e simples deveria ser levado mais a sério. Só que não é. Segundo a Organização Mundial da Saúde, 70% da população do planeta dorme ou dormirá mal.

    Lembre-se sempre: o sono não é um intervalo. Ele é um processo biológico ativo, altamente sofisticado, essencial para a manutenção da vida e, principalmente, da nossa capacidade de existir com qualidade. Durante o sono, o corpo executa tarefas que simplesmente não acontecem em nenhum outro momento do dia. É quando o cérebro reorganiza informações, recalibra emoções, consolida memórias, regula hormônios e – talvez um dos pontos mais impressionantes – literalmente se “limpa” de resíduos metabólicos acumulados ao longo do estado de vigília.

    Quando eu explico isso aos meus pacientes, gosto de trazer uma imagem simples: imagine que o seu cérebro é uma cidade que funciona intensamente durante o dia. À noite, enquanto você dorme, entra em ação um sistema de manutenção, limpeza e reorganização urbana. Se esse processo não acontece de forma adequada, o que se acumula não é apenas lixo e desorganização – é disfunção. E essa disfunção, com o tempo, se traduz em sintomas, doenças e perda de performance no trabalho.

    Hoje sabemos que o sono é composto de ciclos estruturados que se alternam entre fases não REM e sono REM (Rapid Eye Movement ou “Movimento Rápido dos Olhos”), cada uma com funções específicas e indispensáveis. Durante o sono profundo, especialmente nas fases mais lentas do sono não REM, ocorre uma intensa atividade de restauração física e metabólica. Já o sono REM está associado à consolidação da memória, ao processamento emocional e à criatividade. Interromper ou fragmentar esses ciclos não significa apenas “dormir menos”, mas comprometer funções biológicas fundamentais. Comprometer seu dia de trabalho, seu período de lazer e o de descanso.

    E, ainda assim, as pessoas normalizam o cansaço, a falta de energia e a dificuldade de concentração, sem relacioná-los à qualidade do sono. É como se estivéssemos culturalmente condicionados a aceitar um estado de funcionamento abaixo do ideal como sendo… o novo normal.

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    Mas o corpo não normaliza – ele reage. Vamos ver por quê.

    Ilustração surrealista, em fundo azul, de uma garota de perfil. Em primeiro plano, vê-se, quadros com imagens de um notebook, um gaveteiro, mãos conectando um fio na tomada e uma mesa com anotações e um lápis.
    A privação de sono compromete funções imprescindíveis para líderes: tomada de decisão, controle de impulsos e capacidade de planejamento. (Domi Kronemberger/VOCÊ RH)

    Efeitos no cérebro (e até na obesidade)

    Uma única noite de privação de sono já é suficiente para alterar o funcionamento hormonal. Observamos aumento dos níveis de cortisol, o principal hormônio do estresse, associado a uma redução na sensibilidade à insulina, o que impacta diretamente o metabolismo da glicose. Ao mesmo tempo, ocorre um desequilíbrio entre grelina e leptina, hormônios que regulam a saciedade. Falando mais para leigos: a falta de um sono de qualidade leva a um aumento do apetite, especialmente por alimentos mais calóricos. Não por acaso, existe uma associação robusta entre privação de sono e ganho de peso. Tanto é que a Sociedade Americana de Obesidade já mensura a tríade para emagrecimento: dieta, atividade física (o que você não precisa de um diploma de Medicina para saber) e… o sono.

    No campo cardiovascular, os dados são igualmente preocupantes. Dormir menos de seis horas por noite está associado a um aumento significativo do risco de hipertensão. Mas talvez o impacto mais profundo – e ao mesmo tempo mais negligenciado – esteja mesmo na nossa caixa craniana.

    O cérebro é, sem dúvida, o órgão mais sensível à privação de sono. E não se trata apenas de cansaço mental. É uma alteração real e mensurável na forma como ele funciona. Por exemplo, estudos mostram que a privação de sono compromete funções imprescindíveis para o dia a dia de líderes de empresas, como tomada de decisão, controle
    de impulsos, planejamento e pensamento crítico. Ao mesmo tempo, há uma hiperativação da amígdala, estrutura relacionada às emoções, especialmente medo e reatividade emocional. E um líder não pode agir só movido pela emoção.

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    Na prática, isso significa que, dormindo mal, nos tornamos mais impulsivos, menos racionais, mais reativos e emocionalmente instáveis. Passamos a tomar decisões piores, reagir de forma desproporcional e interpretar o mundo de maneira mais negativa. E isso vai no sentido contrário do que pensávamos: “Mais tempo acordado e produtivo, melhor o meu resultado e a minha performance”. Não é assim que funciona.

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    “Trabalhe enquanto os outros dormem”

    Apesar de todas essas evidências, vivemos em uma era que glorifica a privação de sono. O empreendedor e autor best-seller Gary Vaynerchuk fez uma afirmação que ficou famosa: “Você pode viver seus sonhos, mas precisa estar disposto a trabalhar enquanto outros dormem”. Essa mentalidade é tão equivocada quanto perigosa.

    A performance humana não é construída “apesar do sono”; ela é construída a partir dele. Estudos conduzidos com profissionais de alta performance, atletas e até pilotos demonstram que a qualidade do sono está diretamente relacionada à capacidade de manter a atenção, tomar decisões rápidas e executar tarefas complexas com precisão. Um dos dados mais emblemáticos nesse sentido mostra que níveis de privação de sono podem gerar prejuízos cognitivos equivalentes aos observados em estados de intoxicação alcoólica.

    Traduzindo isso para a vida real: muitas pessoas estão trabalhando, tomando decisões importantes e interagindo socialmente com um cérebro que, funcionalmente, está comprometido. E é aqui que entramos em um ponto crucial para o mundo contemporâneo: o impacto do sono na performance profissional.

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    Ilustração surrealista, em fundo azul, de uma garota acordando e se levantando da cama. Ao fundo, vê-se, um relógio e uma janela aberta, nuvens e o Sol sorrindo.
    Dormindo mal, nos tornamos menos reflexivos no trabalho, menos racionais, mais reativos e emocionalmente instáveis. (Domi Kronemberger/VOCÊ RH)

    Impactos na criatividade e na inovação

    Um indivíduo privado de sono não apenas produz menos, ele produz pior. Comete mais erros, demora mais para concluir tarefas, tem dificuldade de manter o foco e apresenta menor capacidade de adaptação a situações novas.

    O sono, especialmente o REM, que acontece cerca de 90 minutos depois de você dormir, e se repete em ciclos ao longo da noite, desempenha um papel fundamental na capacidade de estabelecer conexões entre ideias aparentemente desconectadas… um processo essencial para a criatividade. Privar-se desse estágio do sono é, em certa medida, limitar a própria capacidade de pensar de forma original. No ambiente corporativo, isso se traduz em equipes menos eficientes, lideranças menos estratégicas e decisões menos assertivas.

    Outro dado muito relevante: no Brasil, cerca de 60% das pessoas que sofrem de insônia inicial, ou seja, que ficam mais de 30 minutos tentando dormir e não conseguem (aqui, as que usam telas por minutos ou horas antes de fechar os olhos não se encaixam), têm sua causa principal na ansiedade. Então, um dos maiores problemas da atualidade afeta diretamente a qualidade do sono.

    Foi com essa constatação que passei a ver o tema não apenas como um pilar da saúde mas também como um diferencial competitivo.

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    Dormir bem não é apenas evitar doenças. É potencializar a sua melhor versão. É pensar com precisão, decidir com segurança e agir com consistência. É ter um cérebro que trabalha a seu favor, e não contra você. É reduzir o ruído interno, melhorar a regulação emocional e aumentar a capacidade de lidar com desafios.

    Estamos vivendo mais, trabalhando mais, produzindo mais… mas será que estamos funcionando melhor? Dormir bem não é apenas acordar disposto. É acordar com clareza. É acordar com controle. Cada noite maldormida, além da sua energia, tira sua precisão, seu equilíbrio, sua lucidez. Ela rouba pequenos pedaços do seu potencial… até que você já não percebe mais o quanto poderia estar melhor.

    Privar-se de sono não é um ato de disciplina em prol da produtividade. É um ato de autossabotagem. E o
    pior: socialmente aceito.

    Enquanto você insiste em ficar acordado para produzir mais, o seu cérebro implora por reparo. Enquanto você força mais algumas horas de rendimento, o seu corpo acumula mais camadas de desgaste. E, aos poucos, sem perceber, você começa a trocar performance por presença, clareza por confusão, resultado por esforço. Porque não existe alta performance que perdure sobre um cérebro cansado… precisando que você, finalmente, durma bem.

    *Arthur Feltrin é médico especialista em longevidade e bem-estar

    Este texto faz parte da edição 103 da Você RH, que chega às bancas a partir do dia 4 de abril.

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