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Há espaço para sentimentos no LinkedIn?

A escritora Ana Holanda acredita que sim. No livro "O Problema Não É o Leitor. É o Texto", ela mostra como adotar uma escrita afetuosa em textos corporativos.

Por Gabriela Teixeira 1 out 2026, 20h02 | Atualizado em 2 out 2026, 12h43
Capa do livro O Problema Não É o Leitor. É o Texto de Ana Holanda, com título em verde e vermelho, e ilustração de uma mão segurando um ramo de flores rosas e folhas verdes. O fundo é amarelo.
 (Divulgação/Montagem sobre reprodução)
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Há espaço para sentimentos no LinkedIn? Priorizar nos meus resultados Google

Eu nunca publiquei um post pessoal no LinkedIn. Verdade que também mal dou as caras em outras redes sociais, mas quando se trata do LinkedIn essa discrição ganha contornos muito específicos. Toda vez que cogito compartilhar algo sobre uma nova matéria publicada ou um curso realizado, bate um desconforto que dificulta a escrita. Será bloqueio criativo? Ou será síndrome do impostor? Na dúvida, apago o rascunho e me iludo que na próxima vez vai ser diferente.

Imagino que não sou a única profissional na face da Terra que passa por isso. Uma vez, durante um treinamento, ouvi uma colega jornalista dizer que sentia que estava fazendo uma performance cada vez que postava por lá. Outras pessoas na sala concordaram. Depois me peguei pensando: por que falar (ou escrever) sobre nosso trabalho causa essa sensação?

Talvez o X da questão esteja menos no ato em si e mais em como o fazemos. É justamente esse o argumento da também jornalista e escritora Ana Holanda em seu novo livro O Problema Não É o Leitor. É o Texto: Lições reais sobre escrita e comunicação no trabalho. Na obra, ela defende a importância de trazermos para o cotidiano profissional o que chama de “escrita afetuosa”: textos feitos com alma, capazes de tocar seus leitores e permanecer com eles mesmo depois do ponto-final.

Um post sobre a conquista de uma sonhada promoção não precisa ser engessado. O relatório de um projeto ou um comunicado que vai circular apenas na intranet da empresa, tampouco. Porque, sim, a escrita afetuosa também cabe nos textos institucionais. Afinal, antes de sermos profissionais, somos pessoas escrevendo para outras pessoas. Compartilhamos sentimentos e nos conectamos por meio deles. Na era da IA e da otimização excessiva, escrever com o coração não é perda de tempo. É sinal de apreço pelo outro.

É fato: LinkedIn gera ansiedade. Mas é possível lidar com ela

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TRECHO DO LIVRO

Capítulo 7 – Um texto continua sendo um texto, mesmo nos ambientes digitais

“Você precisa estar ali.” Por algum tempo, essa frase me incomodou. O excesso de exposição e o compartilhamento da vida não foi algo que me conquistou imediatamente. Acho que fui entendendo sua função ao longo do tempo e como usá-la a meu favor.

As redes sociais abriram uma porta enorme para que as pessoas, qualquer uma, possam colocar em uma vitrine suas ideias, conquistas profissionais, mudanças de cargo. A única coisa que nunca se modificou foram os textos, que seguem chatos, iguais uns aos outros e desinteressantes. Parece algo feito em linha de produção fabril. Tudo igual. E o igual gera no outro o automatismo na leitura. Aquilo não altera seu universo, suas ideias, não mexe nem uma pequena célula dentro dele. É sempre o mais do mesmo. Isso vale para textos feitos por pessoas ou para empresas (pequenas, médias ou grandes), com raras exceções.

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[…]

O texto que nos aproxima, aquele em que o outro se identifica, é escrito com olhar focado em quem está nos lendo (ou ouvindo) e não em nós mesmos. Quando você escreve algo para contar sobre um curso que fez, uma nova habilidade que desenvolveu, uma mudança profissional, precisa se descolar do ego, do próprio umbigo e de si mesmo. Olhe para o outro. Perceba o que naquele acontecimento tem a ver com o dia a dia, com o banal, o ordinário da vida. Traga algum elemento da vida, uma ilustração, uma cena.

É escrever tirando a formalidade, colocando um tom de conversa. É mostrando que você é uma pessoa falando com outra pessoa, próxima, que olha nos olhos. Não é preciso, todas as vezes, contar uma história, trazer uma memória ou um fato do cotidiano, mas escrever tirando aquele terninho que você insiste em vestir toda vez que vai produzir algum texto para o LinkedIn. Expor nossas fragilidades, acredito, é sempre a parte mais difícil, porque não estamos acostumados com isso. E então nos sentimos estranhos ao colocar nossas emoções, quem somos, sem qualquer tipo de anteparo ou proteção. Não sei se adianta lhe contar, mas esse sentimento é bem normal. Meu conselho: experimente da mesma forma que faz alguém que está entrando no mar pela primeira vez. Coloque o pé, perceba a temperatura e caminhe aos poucos para o fundo, mas vá apenas até onde sentir que você consegue se manter firme sem o perigo de se afogar. Só não deixe de tentar, porque estar sempre no raso é desejar muito pouco da vida.

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Contas corporativas

Tudo o que estou mostrando neste capítulo pode até contorcer por dentro – e talvez realmente precise disso para quebrar seus muros –, mas e quando isso envolve falar em nome de uma empresa? Qual caminho deve seguir para trazer uma linguagem mais humana quando você é a pessoa responsável por produzir os textos da empresa, organização, instituição, para o LinkedIn ou redes sociais em geral? Quero que saiba que, mesmo nesses casos, é possível fazer textos para o LinkedIn, materiais institucionais e posts que tenham uma linguagem mais próxima, menos rígida e formal.

A raiz do problema está, como sempre, em criarmos a linha divisória entre pessoa física e jurídica. O que cabe em um não serve no outro. Quando cultivamos esse pensamento, colhemos uma comunicação distante das pessoas (leitores, clientes, pacientes, usuários, consumidores, colaboradores etc.). As consequências disso podem ser vistas nas redes sociais. Certa vez, fiz um trabalho, que adorei, para uma rede de saúde que atua na área de análises clínicas e também no tratamento do câncer em mulheres. Eles me procuraram porque estavam interessados no meu treinamento em escrita afetuosa. Nas reuniões que tivemos para que entendesse a necessidade deles – sempre faço isso porque acredito ser importante alinhar o meu trabalho ao que o outro precisa –, pedi que me enviassem materiais de comunicação interna. Além disso, li os textos que faziam para as redes sociais e para o site. O problema que me foi trazido: a comunicação estava dura demais e gostariam de algo mais humano e até sensível. Ao analisar todo o material, encontrei um perfil similar ao de muitas empresas. Uma linguagem dura, distante, que estabelecia quilômetros de distância com as pessoas em tudo o que faziam: comunicação interna, site, redes sociais. Sabia que, antes de apresentar uma solução pronta, precisava mostrar a escrita ou comunicação mais afetuosa. Porque não adiantaria trazer novos modelos de textos sem ensinar como chegar neles. O que mais gosto dos treinamentos é que
as pessoas vão percebendo as diferenças de uma comunicação mais sensível e próxima nelas mesmas. O gelado se torna quentinho, emociona, mexe por dentro ou, no mínimo, passa a ter mais clareza.


Antes da escrita afetuosa

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Coleta domiciliar

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Depois da escrita afetuosa

Os olhos estavam voltados para baixo. Os ombros caídos. Os cabelos presos em um coque imperfeito. Seu corpo dizia o que as palavras guardadas negavam: ela estava com dor. Ao lado, um homem conversava com uma moça sobre a urgência do exame. Ela seria operada em breve. Essa é uma cena possível de ser testemunhada todos os dias em um centro de exames e cuidados.

Estar doente é um exercício de abnegação. Deixa de ser aquilo que você deseja ou gostaria para o que o sistema tem a lhe oferecer. Nós sabemos e é exatamente por isso que criamos um serviço de atendimento em casa. Nosso jeito de confortar você no momento em que mais precisa.

Coleta domiciliar: segunda a sexta-feira, das 6h30 às 16h30; sábado, das 6h30 às 11h30; domingo, das 7h30 às 11h30. Para agendar a sua, basta enviar sua mensagem de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h.

[…]


Ao final da experiência nessa empresa da área da saúde, que me marcou, mas, tenho certeza, impactou ainda mais as pessoas com quem pude dividir meus conhecimentos, escrevi o seguinte texto:

“Um silêncio profundo. Foi assim que terminou um treinamento de dois dias, que fiz para uma empresa de saúde. ‘Vocês estão bem? Gostariam de comentar alguma coisa? Têm alguma dúvida?’. Silêncio. Então alguém falou: ‘Estamos impactados e precisamos conversar entre nós’. Sim, as pessoas, um grupo de vinte, estavam em choque. Preparei aulas bem focadas na realidade deles. Analisei Instagram, site, material de comunicação interna. Nada muito diferente do que costumo ver nas empresas, independentemente do tamanho e da área de atuação: uma comunicação padrão, pré-moldada, mais do mesmo. Os mesmos vícios, a mesma frieza. A mesma dificuldade em perceber o outro como pilar importante da comunicação e em construir uma linguagem mais próxima, longe de
jargões e termos técnicos.

O que os ensinei é a construção de um novo caminho em que aprendam a pensar a comunicação a partir deles e do trabalho profundo que realizam diariamente. E isso é algo que não fomos ensinados. Aprendemos a usar soluções prontas, pautadas pela técnica. O resultado é insosso. Mas, depois de experimentar uma possibilidade de comunicação em que criam, desde o início, as próprias soluções, fica impossível seguir fazendo da forma anterior. É como passar uma vida comendo sopa instantânea e, um belo dia, alguém lhe apresenta a sopa caseira, feita com ingredientes frescos. Também não tem mais caminho de volta.

Quando se trata de comunicação, qualquer uma, acreditamos que as respostas para o coletivo vão nascer de um único lugar, da técnica, da inteligência artificial. Mas as respostas que vão reverberar no coletivo precisam nascer, primeiro, dentro de cada um. A partir de quem somos.”

Este texto faz parte da edição 106 da Você RH, que chega às bancas a partir do dia 2 de outubro.

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