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Inteligência artística: conectando a criatividade ao futuro do RH

A arte ajuda gestores a lidar com os próprios erros, atuar em momentos de mudança e abraçar a inclusão. Veja exemplos de empresas que já exploram essa “IA”.

Por Clara Cecchini
Atualizado em 12 fev 2025, 15h52 - Publicado em 3 fev 2025, 15h00
Ilustração de um grupo de pessoas apreciando obras de arte.
 (Ananda Ferreira/VOCÊ RH)
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Pense numa escola sem carteiras, onde cada sala é um convite à criatividade: espaços vazios com piso de madeira para mover o corpo; mesas coletivas para colaboração; oficinas para construir objetos; áreas ao ar livre para experimentações mais ousadas.

Ali, grupos de 25 jovens vivem uma formação de quatro anos, em período integral. Nos dois primeiros, exploram experimentação criativa e fundamentos técnicos e teóricos; nos dois últimos, desenvolvem projetos coletivos ao lado dos professores, compartilhando os resultados com a comunidade. Ao final, cada estudante terá descoberto seu caminho, compreendendo que será o empreendedor de sua própria carreira, inventando seu trabalho.

Se você pensou em alguma instituição disruptiva no Vale do Silício, Finlândia ou Dinamarca, saiba que ela está no interior de São Paulo. Essa foi a experiência de cursar o Bacharelado em Artes Cênicas na Unicamp. Estudar teatro vai muito além de “não ter vergonha de falar em público” ou “decorar texto”. A experiência desenvolve habilidades essenciais para o mundo do trabalho contemporâneo.

Tivemos lições práticas de liderança e influência social para realizar projetos coletivos, que sem empatia e escuta ativa seriam simplesmente impossíveis; e desenvolvemos muita resiliência, flexibilidade e agilidade para lidar com imprevistos e conflitos. Sem falar da clareza de que ser artista é seguir curioso e aprendendo ao longo da vida, com motivação e autoconsciência. 

Essas são, “por acaso”, seis das oito primeiras habilidades listadas como core skills para este ano pelo recente Future of Jobs Report 2025. O Fórum Econômico Mundial traz ainda, nessa edição, um quadro das habilidades passíveis já de substituição pela IA generativa. As consideradas sem substituição são empatia, escuta ativa e processamento sensorial – todas desenvolvidas não apenas nesse exemplo de formação em teatro mas em qualquer contato com as artes, seja de prática ou de fruição.

Afinal, a arte acompanha a humanidade há milênios, é parte intrínseca da existência humana muito antes de qualquer crachá. Porém, tão verdade quanto isso é que houve historicamente uma separação que se pretendeu total entre a arte e o mundo corporativo, fortemente baseada no paradigma industrial de eficiência, controle, desempenho mensurável e despersonalização. Um cenário em que subjetividade, emoções e liberdade criativa simplesmente não tinham lugar.

Só que é urgente reconectar esses dois mundos. É fundamental, por exemplo, para que o RH crie respostas às novas perguntas que aparecem todos os dias nas empresas. A criatividade – que sabemos ser absolutamente essencial para qualquer carreira e negócio – não cabe nos processos industrialmente formatados; exige uma outra forma de pensar, de olhar para o mundo, de conviver.

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A forma de atuar própria dos artistas – não binária, curiosa, irreverente, entusiasmada, com abertura ao contraditório e à experimentação – pode permear as nossas organizações de forma sistêmica, alcançando a maneira como pensamos, organizamos processos, produzimos e inovamos. Mas, para isso, precisamos tirar a arte do local decorativo e trazê-la como inteligência no momento de conceber nossos programas de desenvolvimento profissional.

Ilustração de diversos materiais para produção obras de arte – pincéis, lápis, tintas, papéis.
O teatro serve como analogia para mostrar que, na comunicação da liderança, não é possível “ficar na plateia”. (Ananda Ferreira/VOCÊ RH)

O professor Ricardo Carvalho, referência na área de artes para gestão, resume bem essa visão: “Eu não sou a cereja do bolo!”, é a resposta que ele dá quando perguntado sobre o papel da arte e a relevância do seu trabalho para as empresas. Ricardo é pós-doutor em Art of Management pela Reims Business School, consultor e professor de Art for Management and Creative Leadership nas principais escolas de gestão do mundo, entre elas a Fundação Dom Cabral – além de psicanalista e artista. Sua prática se dá tanto em sala de aula, lecionando disciplinas nos campos das artes e das humanidades, quanto no campo, levando executivos a visitar museus ao redor do mundo, ampliando sua compreensão sobre as questões humanas e caminhos para a criatividade.

“Pós-Covid e com o avanço da inteligência artificial, as habilidades características dos artistas – imaginação, criatividade e capacidade de perceber de forma diferenciada – estão sendo cada vez mais demandadas, porque a IA não as reproduz, e a inovação depende delas. Todo mundo quer inovar, mas sem criatividade é impossível, especialmente quando se trata de inovação disruptiva.” Ricardo demonstra-se otimista sobre o momento da arte nas empresas, mas não considera uma causa ganha; pelo contrário, o pêndulo está em pleno movimento, com avanços e retrocessos.

Aqui, vamos conhecer algumas experiências que estão abrindo caminhos para essa urgente reconexão, compreendendo que as áreas de RH precisam ser um pouco artistas, um pouco curadoras de arte, um pouco produtoras de espetáculos: orquestrando com sensibilidade a transformação para um futuro desejável para as pessoas e para os negócios. 

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Teatro: para aprender a ver a complexidade

Tendemos a observar a criatividade no trabalho como algo ligado apenas à produção de novidades ou à resolução de problemas, mas uma dimensão igualmente essencial é a criação de sentido nos processos de mudança. Que futuro podemos imaginar juntos?

As áreas de RH, além de desenvolver e implementar soluções inovadoras, precisam ajudar as pessoas a encontrar propósito em meio à transformação acelerada que vivemos, movendo-as do caos para a construção ativa do futuro. Essa habilidade de gerar sentido, central na importância da arte para a humanidade, tem nos ajudado a atravessar e compreender momentos turbulentos ao longo da história. Por isso, a arte pode ser uma aliada poderosa para trazer significado às mudanças nas organizações.

A indústria financeira é um exemplo de transformação acelerada e intensa. Emanuelle Magno, senior head de Desenvolvimento Organizacional do Santander, tem um olhar atento a esse contexto, atuando para que a organização se transforme e as pessoas sejam líderes dessa revolução. Nesse contexto, desenvolver flexibilidade cognitiva para interpretar cenários complexos é crucial, pois sempre há problemas novos e difíceis de identificar. É aqui que a arte pode exercer um papel transformador.

O Santander utiliza o teatro para desenvolver líderes, com destaque para o Voz, parte do Programa Líder Comunicador, da Academia Santander. Esse “encontro formativo-espetáculo” usa as artes cênicas como analogia para mostrar que “não existe estar na plateia” na comunicação da liderança.

Atores profissionais compartilham o essencial do seu ofício, sua dedicação à arte de se comunicar. Então, encenam uma dramaturgia baseada em fatos históricos: a decisão de lançar um foguete que termina em catástrofe. Após assistirem à cena, os participantes orientam os atores como refazê-la de improviso, buscando um desfecho melhor. Essa dinâmica, mediada por especialistas, reforça a importância de captar sutilezas, entender motivações ocultas e se comunicar de forma mais efetiva.

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Planejado inicialmente para poucas turmas, o Voz já teve 14 edições desde 2019, começando no Teatro Santander e se adaptando ao formato online na pandemia. Questionada sobre o porquê de tamanho sucesso, Emanuelle reflete que o teatro é uma forma de trazer as emoções para o aprendizado: “Quando a gente faz uma encenação, isola o ambiente de aprendizagem. Ao usar um fato, traduzindo um dilema em uma situação de crise, as lideranças treinam a musculatura para encontrar caminhos, soluções, formas de sair daquela situação”.

O teatro é a vida condensada – com seu calor e contradições. “Dizer que alguém teve um comportamento inadequado, qualquer que seja, é uma coisa; encenar e depois ter de debater quais seriam os melhores caminhos, é muito mais efetivo”, reflete a executiva.

Ilustração de diversas mãos segurando pincéis produzindo uma obra de arte.
Na Heineken, as iniciativas envolvendo arte estão alinhadas ao pilar estratégico de pessoas: com diversão, respeito e cuidado. (Ananda Ferreira/VOCÊ RH)

O palhaço ensina a lidar com fracassos

A Heineken é referência no mercado quando falamos de vivência genuína de valores corporativos e seu reflexo em indicadores de RH. Os números estão aí: a pesquisa de clima batendo 91 pontos de favorabilidade (97% de participação) e, desde a implementação da Diretoria de Felicidade, o turnover voluntário caiu de 5% para 0,7%. A diretora de Pessoas, Andrea Bianchi, ao olhar o percurso, reconhece a presença da arte em diversos momentos, ajudando a trazer para a vivência os valores da organização.

Andrea relembra a criação do Be Leader Festival, cuja segunda edição ocorreu em abril de 2024. Integrando a Jornada da Felicidade da Heineken, o primeiro Be Leader explorou o conceito de felicidade corporativa, enquanto o segundo avançou para a segurança psicológica. O festival reuniu 550 líderes em uma programação dinâmica e diversa.

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Para Andrea, a experiência final foi a mais marcante: trabalhar a vulnerabilidade com Marcio Libar, palhaço que promoveu um momento coletivo de conexão. Por meio de perguntas cada vez mais profundas, os participantes encontraram pontos em comum e perceberam que momentos difíceis acontecem com todos – e não precisam ser enfrentados de forma solitária.

O palhaço simboliza a vulnerabilidade ao expor erros e fracassos. Após o festival, a experiência foi replicada com outros públicos, mostrando como a arte “toca as pessoas, abre espaço para conversas difíceis e ajuda a entender quem está do outro lado”, afirma Andrea.

Mas nem só de grandes eventos vive a arte no RH da Heineken. Andrea Bianchi destaca que os encontros de desenvolvimento são sempre imersivos e diferentes: “A gente busca fazer os presenciais de forma mais profunda”. Para ela, a arte é essencial porque vai além do conteúdo, provocando reflexões e conexões. Outras experiências, envolvendo desenho e música, foram realizadas para diversos públicos, em formatos mais intimistas ou amplos.

Andrea acredita que essas iniciativas são essenciais para a evolução observada na Heineken, pois estão alinhadas ao pilar estratégico de pessoas e aos valores da empresa: diversão, respeito e cuidado. A coerência e a intencionalidade dessas ações, somadas a outras iniciativas, refletem-se diretamente nos indicadores de RH.

Desenhar o outro visando à inclusão

Incorporar a arte nos processos de transformação organizacional é uma estratégia poderosa. Além de educar o olhar para a complexidade e sedimentar valores coletivos, a arte revela uma dimensão indispensável: a capacidade de abordar as questões subjetivas que emergem em qualquer processo de mudança.

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A Anbima, Associação Brasileira das Entidades do Mercado Financeiro e de Capitais, é um exemplo. Eliana Marino, superintendente de Gente, Saúde, Diversidade e Inclusão, explica que a Anbima está há mais de sete anos em uma jornada de transformação, utilizando as artes para ampliar perspectivas e aprofundar entendimentos. “Desde 2017, temos falado de futuro do trabalho, segurança da informação, economia de dados… sempre pensando em como abrir a mente das pessoas para esse novo mundo e prepará-las para desafios que já estão acontecendo.” Além de enfrentar mudanças impostas, como a pandemia, a organização também promoveu transformações planejadas, incluindo um trabalho consistente em diversidade e inclusão.

Esse processo trouxe muitos desafios, especialmente para os gestores. “A transformação demanda coragem – como cuidar das pessoas?”, questiona Eliana, respondendo que a chave é o acolhimento e a atenção à sensibilidade. Por isso, a arte foi uma aliada importante em diversos momentos.

Um exemplo de uso de linguagens artísticas na associação é o programa Liderança Empática, criado para dar apoio aos gestores para lidar com tamanha complexidade. Fortalecer as conexões humanas era um dos objetivos do programa. Por isso, com o modelo de gestão da entidade em mãos, os líderes se uniram aos times para compartilhá-lo. “Logo no primeiro encontro, as pessoas foram desenhadas umas pelas outras”, lembra Eliana. Nessa abordagem, o que vale é o processo experimental com uma linguagem criativa, a ritualização do olhar coletivo e focado entre as pessoas do grupo.

Mas não é só a identificação de pontos em comum que sustenta a transformação – o que não queremos ser também nos une. Nesse sentido, a Anbima tem uma outra experiência marcante na jornada com a arte: “Desenhamos o que é inegociável no nosso modelo de gestão, mas como vamos dar vida para isso?”, perguntou-se Eliana – e optou pelo caminho do teatro.

Em uma ação sobre diversidade e inclusão, a Anbima convidou um ator profissional, Fabrício Licursi, para desafiar os “inegociáveis” – os valores essenciais da organização. “Ele trouxe uma fala completamente diferente, foi um choque. Os gestores ficaram paralisados e, aos poucos, começaram a entender. ‘Desse jeito eu não quero ser!’”, conta Eliana. A cena, que foi se revelando aos poucos, ajudou os participantes a enxergar a realidade de forma mais clara. 

O professor Ricardo Carvalho resume o impacto do teatro: “Precisamos ter comportamento dialético, lugar para o contraditório, e o teatro é a grande força. Ele cria um espaço de conversa qualificada, no qual as pessoas se identificam, falam – e mudam”.

Ilustração de uma garota subindo uma escada sinuosa.
A arte ajuda a lidar com verdades que as organizações têm dificuldade de reconhecer ou processar. (Ananda Ferreira/VOCÊ RH)

A arte expõe o que está embaixo do tapete

Nas empresas é fundamental desmascarar as ilusões e questionar as representações. A provocação e o estranhamento criados pela arte são ferramentas poderosas para desconstruir aquilo que parece sólido, mas precisa ser transformado.

Está aqui uma contribuição essencial da arte ao mundo corporativo: abrir espaço para o imperfeito e o inacabado. Nelson Rodrigues, ao descrever sua dramaturgia, disse: “Numa palavra, estou fazendo um ‘teatro desagradável’, ‘peças desagradáveis’”. Esse desconforto, longe de ser um obstáculo, é o verdadeiro potencial da inteligência artística nas empresas: provocar para revelar o que realmente precisa ser tratado.

Um erro comum é enxergar a arte como mera decoração, entretenimento ou status. Ela ajuda a lidar com verdades difíceis de encarar, que as organizações muitas vezes têm dificuldade de reconhecer ou processar. É importante lembrar que esse impacto só acontece com intencionalidade clara e em ambientes de confiança.

Reconhecer que a transformação organizacional exige incômodo é um dos maiores aprendizados que a arte pode oferecer. Essa capacidade de confrontar o que é desconfortável ajuda a superar a assepsia do paradigma industrial, que desumaniza os ambientes de trabalho e sufoca a criatividade.

Nessa outra “IA”, o A, de artística, precisa sempre estar do lado do I, de inteligência. É assim que a arte pode apoiar líderes e RHs na construção de organizações mais humanas, criativas, sustentáveis e relevantes.

PARA A CONSTRUÇÃO DO SENTIDO

As analogias criadas pela arte levam líderes e colaboradores a entender melhor o contexto da empresa e de si mesmos na organização.

O Programa Voz, do Santander, é um exemplo do uso da arte como dispositivo que tem o intuito de ampliar a percepção das pessoas sobre a própria realidade.

No artigo “Vendo mais e vendo de forma diferente: geração de sentido, mindfulness e workarts” (em tradução livre), os pesquisadores Daved Barry e Stefan Meisiek investigam as múltiplas possibilidades de trabalho com arte dentro das empresas.

Os autores defendem que a arte, ao sair do campo ilustrativo e provocar analogias, muda a qualidade de atenção em relação ao que vemos todos os dias, ampliando significados. “As artes utilizam artefatos e processos análogos para tornar nossos recursos de construção de sentido familiares novamente, descobrindo novas maneiras de trabalhá-los e tornando-os mais profundamente significativos.”

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Infográfico, em fundo violeta, explicando a importância da arte no dia a dia nas empresas.

Este texto é parte da edição 96 (fevereiro e março) da Você RH. Clique aqui e confira outros conteúdos da revista impressa.

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