Como as empresas estão aprendendo (melhor) com robôs
Organizações recorrem à IA para treinamentos personalizados e desenvolvimento dos funcionários, mas enfrentam desafios para o uso da tecnologia pelas equipes.
Em breve, o Joca saberá das qualidades de todos os funcionários da OLX. E conhecerá também quais habilidades cada um precisa desenvolver melhor. Falta comunicação executiva para alguma liderança? Tome esses conteúdos aqui. O vendedor novato ainda precisa melhorar suas técnicas de negociação? Converse com o Joca. A gerente que acabou de assumir um time precisa melhorar o jeitinho de dar feedback? Joca de novo.
O carioca charmoso de 34 anos entrou para a OLX há um ano e meio. Embora tenha rosto e sotaque, e esteja sempre online no Slack, Joca não existe no mundo real. Ele é uma inteligência artificial criada pela equipe da OLX para resolver as dúvidas dos colaboradores. Desde então, o número do helpdesk parou de tocar tanto – Joca reduziu em quase 65% os chamados de dúvidas. Com o tempo, ganhou tecnologia generativa e passou a assumir outras funções. Se você precisar da cópia do contracheque, ele enviará em poucos segundos. Virou também um ouvido amigo, um conselheiro dos colaboradores. Certa vez, uma funcionária contou a ele que estava grávida e perguntou o que fazer. Gentilmente, Joca a parabenizou e perguntou se ela havia contado ao gerente. Guardou segredo.
Agora, a próxima missão de Joca é ajudar no treinamento dos colaboradores. Com o uso de outra ferramenta de IA, a empresa está mapeando as habilidades da equipe de tecnologia, que será a cobaia. E o Joca terá acesso a todas essas informações para sugerir trilhas superpersonalizadas.
“O comum nas empresas é disponibilizar o conteúdo de aprendizado para toda a equipe. Mas isso é ineficiente, porque as pessoas têm proficiências e níveis diferentes. Eu preciso de comunicação executiva, você não, e, ainda assim, estaremos na mesma turma. A empresa vai investir dinheiro em nós duas à toa”, explica Christiane Berlinck, CHRO do Grupo OLX. “A evolução é realmente você fazer inferências usando inteligência artificial. A partir disso, de uma maneira proativa, você vai poder fazer o skill e o upskilling das pessoas colaboradoras de uma maneira mais intencional e assertiva.”
A empresa é só uma das tantas que correm atrás de soluções com IA para treinamento e desenvolvimento de funcionários. Segundo o estudo “CIO Report 2025”, realizado pela Logicalis e pela Vanson Bourne, empresas de tecnologia da informação, 83% das companhias daqui pretendem manter ou ampliar os investimentos em IA nos próximos 12 meses. E, entre os RHs, 44% empregam essas ferramentas para ensino e treinamento.
Como as empresas usam a IA para treinamento
Era só um treinamento online de líderes de uma organização, mas virou um podcast. A equipe da nōvi (consultoria de educação corporativa especializada em aprendizagem contínua) gravou toda a reunião, registrou até mesmo as conversas no chat, e subiu todos esses arquivos no NotebookLM, do Google – uma ferramenta de IA que cria podcast. Resultado: em um tom descontraído, um homem e uma mulher conversam, ao longo de três minutos, sobre os principais pontos da reunião.
“Temos três níveis para aplicar na aprendizagem corporativa. O primeiro deles é melhorar práticas, melhorar formas de comunicação. E isso é um baita desafio: usar a comunicação para gerar engajamento nos treinamentos. É o caso mais comum de uso nas empresas”, explica Conrado Schlochauer, doutor em Psicologia da Aprendizagem e sócio da nōvi.
“O podcast é uma solução muito interessante. Geralmente, a pessoa faz o treinamento e esquece meia hora depois. Então, você pode escutar o episódio no caminho de volta para casa. Isso é incrível”, completa.
Um nível acima disso seria, segundo Conrado, o da tutoria automatizada – como se a IA fosse mesmo um coach, um especialista sênior da empresa. E capaz de fazer até simulações sobre situações específicas que aconteçam com o colaborador. “Todas as informações dos produtos e dos serviços, das políticas, ficam armazenados na ferramenta. Se o colaborador pedir ajuda para uma reunião, não vai ser uma conversa genérica, vai ser mais técnica, focada na questão do aprendizado”, afirma.
Nesse segundo nível também entram as trilhas de aprendizado personalizadas – algo parecido com o que a OLX pretende fazer com o Joca. “A pessoa vai entrar e entender exatamente qual conteúdo é para ela. É mais uma possibilidade do que realidade”, pondera Conrado Schlochauer.
O terceiro nível, mais ambicioso, seria integrar dados de desempenho, carreira e aprendizagem. Nesse cenário, a IA acompanharia o que o funcionário realmente conseguiu aplicar no trabalho e, a partir disso, indicaria novos cursos, exercícios ou mentorias para preencher lacunas específicas.
Como o RH pode apoiar a adoção da IA
Aprendizagem sob demanda – e o tempo todo
A inteligência artificial abriu um caminho sem volta: aprender deixou de ser um evento com hora marcada. Tornou-se um processo contínuo, imediato e integrado ao dia a dia de trabalho.
“O treinamento tradicional está morrendo. Antes, a gente entregava um blocão de conteúdo para a pessoa estudar e depois aplicar no campo. O problema é que não dá para prever todas as situações que ela vai enfrentar”, afirma Luiz Alexandre Castanha, fundador da NextGen, empresa de educação digital. “Hoje, você tem momentos curtos de aprendizagem, de alto valor, e depois tira dúvidas no dia a dia com um robô. Com a ajuda da tecnologia, o aprendizado vira algo constante.”
É assim com os funcionários da OLX quando recorrem ao Joca. E também com um chatbot desenvolvido pela Calor, escola de comunicação voltada para organizações. Em uma das formações disponíveis, os líderes assistem a um workshop sobre carisma. E, depois, podem acessar, a qualquer momento, uma ferramenta batizada de “termômetro do carisma”, alimentado com estudos e 12 táticas de carisma comprovadas cientificamente.
“A ciência já provou que não se nasce com carisma. Essa sequência de táticas faz você ser mais percebido como um líder. Então, a gente pratica, faz imersão e debate durante o curso. E nosso bot fica com eles para treinar”, explica Larissa Santana, fundadora da Calor. “No dia a dia da empresa, se eles estão com dificuldade para escrever um e-mail, por exemplo, podem usar o bot. E, assim, o conhecimento fica imediatamente aplicado. Isso, para mim, é uma das revoluções da IA generativa: você consegue dar o conhecimento na hora que a pessoa precisa.”
O novo papel do RH
Se, por um lado, as empresas estão investindo cada vez mais em inteligência artificial, por outro, os funcionários ainda recebem pouco apoio para aprender a usar essas ferramentas no trabalho. Segundo o relatório “LinkedIn Workplace Learning”, quatro a cada cinco profissionais dizem querer desenvolver habilidades relacionadas à IA, mas uma pesquisa americana mostrou que apenas 38% das empresas oferecem algum tipo de treinamento ou orientação sobre o tema.
“Um dos problemas é a falta de conhecimento sobre o uso das ferramentas. Uma coisa é conhecer, outra é saber como utilizá-las”, lembra Conrado. “Não tem como usar as ferramentas adequadamente se você não as conhece, não sabe o seu propósito nem como podem ser aplicadas”, afirma Lília Mascarenhas, especialista em educação e inovação da Fundação Dom Cabral.
Isso significa investir em letramento em inteligência artificial para líderes e funcionários, ajudando-os a entender o que essas ferramentas fazem ou não. Mas, ao contrário disso, muitas empresas ainda deixam seus colaboradores à própria sorte no uso da IA.
Um manifesto sobre a adoção de inteligência artificial, da consultoria Gartner, alfineta ainda outro ponto: não adianta mais fazer qualquer curso só para florear o currículo. O aprendizado e as habilidades que importam precisam fazer diferença de acordo com a pessoa, o cargo e a empresa. E esse aprendizado, segundo a Gartner, precisa estar integrado ao dia a dia no trabalho. Cabe às lideranças também estimular o conhecimento coletivo dentro das organizações – quanto mais você repassar o que sabe, mais sua equipe vai crescer.
E, para crescer, sem risco de queda, é preciso deixar alguns pontos bem claros aos profissionais no letramento da IA: nem todas as informações podem parar nos bots de uso comum, como o ChatGPT. “É necessário o cuidado com a proteção dos dados para não expor nada sensível da empresa, para não fragilizar a segurança da organização”, aponta Lília.
Também não dá para confiar em tudo que diz a IA – ela também erra. Ferramentas generativas são capazes de produzir textos, traduções e resumos com grande fluidez, mas não funcionam exatamente como bases de conhecimento confiáveis. “Tudo o que uma inteligência artificial generativa cria deve ser verificado”, diz a especialista da Fundação Dom Cabral.
“Precisamos também saber fazer uma reflexão. É muito fácil olhar para um relatório e achar perfeito. Mas necessitamos de pensamento crítico para saber o que fazer com a ferramenta. No mundo corporativo, com pouco tempo e muita reunião, você tem o risco de aceitar algo que parece bem-estruturado, mas que não passa a mensagem que você queria”, complementa Conrado Schlochauer.
A verdadeira transformação acontece mesmo é quando a inteligência artificial amplia a curiosidade humana e fortalece o aprendizado contínuo. No fim das contas, por trás de toda IA realmente poderosa, sempre precisará existir algo ainda mais essencial: gente disposta a aprender, questionar e evoluir. Sempre.
Este texto faz parte da edição 103 da Você RH, que chegou às bancas no dia 4 de abril.







