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Os efeitos da incerteza no trabalho

Um mundo caótico afeta o desempenho dos colaboradores. O RH não consegue resolver todos os enroscos do planeta, mas pode reduzir seus efeitos no escritório.

Por Leo Caparroz 20 Maio 2026, 18h00
Imagem conceitual, em preto e branco, do globo terrestre na ponta de um trampolim.
 (Daniel Grizelj/Getty Images)
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A cada dia, somos surpreendidos por acontecimentos inesperados de escala global (ou local) que, muitas vezes, acabam nos afetando diretamente – ou nos deixam muito preocupados com o nosso futuro.

Não é impressão, as incertezas do mundo estão cada vez mais frequentes e impactantes. Todos os parâmetros do World Uncertainty Index (Índice de Incerteza Global, uma métrica que monitora essa sensação) atingiram uma máxima histórica no final do ano passado – provavelmente devido à intensificação dos ataques de Israel a Gaza.

Guerras, instabilidades políticas e econômicas, pandemias, desastres naturais, revoluções no mercado de trabalho, novas tecnologias e vários outros fatores contribuem para aumentar, e muito, a sensação de não termos certeza de quase nada. Um novo vírus pode surgir, um presidente pode bombardear um país, uma ferramenta ameaça seu emprego. Engana-se quem acredita que todo esse caos não atrapalha o ofício de um trabalhador.

Operando sob a névoa da dúvida

A abordagem usada na maioria das pesquisas sobre a incerteza no ambiente organizacional costuma ser voltada para quem toma as decisões: os gestores. Esse enfoque valoriza mais a estrutura da empresa e como ela lida com dúvidas.

Porém, o RH tem a tarefa de se preocupar com algo muito mais específico e individualizado: cada colaborador. Afinal, eles são o ativo mais importante de uma organização. Então, a perspectiva mais relevante sobre incerteza é a desses profissionais. Da mesma forma como contribuem para o sucesso do negócio, eles também sofrem as consequências negativas da incerteza.

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E conviver com ela repercute seriamente na saúde mental dos profissionais. Uma pesquisa publicada no periódico Psychology Research and Behavior Management analisou dados de quase mil funcionários chineses e atestou que “a incerteza tem o potencial de aumentar a pressão no trabalho dos funcionários, elevando, consequentemente, o risco de depressão e ansiedade”.

Já outra pesquisa, publicada no Journal of Health Applied Sciences and Management, complementa a lista com problemas de saúde, insegurança, absenteísmo, queda de produtividade, de eficiência, de criatividade, entre outros. Segundo os pesquisadores, a ausência de clareza e de segurança sobre o futuro e suas implicações faz com que os colaboradores se sintam ameaçados. Isso aumenta a pressão que o trabalho exerce na vida deles, drenando sua energia física e mental.

“Geralmente há aumento da ansiedade e do estresse, além de dificuldade para se concentrar nas tarefas, o que torna mais difícil para os funcionários terem um desempenho ideal e pode impedi-los de atingir as metas estabelecidas”, escrevem em seu estudo.

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Incertezas no ambiente corporativo

Trabalhar com uma preocupação incessante ocupando sua mente é exaustivo. Fica difícil focar nas tarefas complexas do seu cargo se tem algo grande e aterrorizante ameaçando seu futuro.

Mas um trio de pesquisa, liderado pela professora Layla Branicki, da Universidade de Bath, fez um apontamento importante: incertezas não precisam ser causadas por “eventos extremos isolados”. Na maioria das vezes, essas preocupações vêm de estressores cotidianos, como “tarefas impossíveis, desagradáveis, sem apoio e aparentemente sem sentido. Podem também resultar de remuneração inadequada ou condições de trabalho precárias, levando à perda de motivação”.

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As pesquisas desse assunto não ficam só na teoria, elas apresentam implicações práticas: primeiro, já que incertezas importunam a saúde mental, as organizações devem tentar dar mais segurança aos funcionários.

Segundo, dado que a incerteza global é contínua, é essencial que as organizações criem um ambiente psicologicamente saudável e forneçam recursos adicionais nessa área. “Tais iniciativas são cruciais para prevenir a deterioração da saúde mental devido à incerteza externa e para melhorar o bem-estar geral dos funcionários”, escrevem os pesquisadores.

O trabalho é apenas uma extensão de como vivemos. Ao bater o ponto na hora da entrada, ainda carregamos todas as preocupações que nos afligem fora do horário de serviço. Se o mundo lá fora já causa tanta ansiedade em nossa vida, o RH pode, pelo menos, diminuir os estressores dentro do escritório.

Este texto faz parte da edição 103 da Você RH, que chegou às bancas no dia 4 de abril.

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